VII Olhar de Cinema: “Imfura”

Filme aporta no Festival já tendo sido premiado no 68º Festival de Berlim 2018 com o prêmio do júri

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08 de junho de 2018

“Imfura” de Samuel Ishmwe, produção Suíça/Ruanda

Premiado com o Prêmio do Júri na competição de curtas-metragens no 68º Festival de Berlim 2018, “Imfura” é uma pequena joia sobre a memória e a medida de tempo e pertencimento em meio aos escombros de traumas do passado, mais especificamente os fantasmas deixados pelo genocídio da etnia dos tutsis por hutus extremistas. Período nefasto da história, onde até mesmo a ONU demorou a agir e não quis se envolver até que fosse tarde demais, os sobreviventes de ambos os lados tiveram de continuar convivendo em um território partido.

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Herdeiros daquela violência, hoje, continuam possuindo uma terra paradisíaca pelo toque de Deus, como o curta-metragem “Imfura” bem demonstra em fotografia apurada, seu diretor regressa às raízes em Ruanda, com coprodução Suíça, para tentar demonstrar seu lugar de fala como um destes herdeiros da memória, metaforizado no protagonista que fica dividido entre seus dois tios com posições opostas entre vender o terreno onde sua mãe havia tentado construir sua morada familiar antes de ser morta no genocídio ou tentar reconstruir a casa em meio aos escombros como preservação da lembrança e símbolo de um futuro munido da força e consciência do passado.

Destaque para a cena sob trovões na penumbra com dois personagens dialogando diante de mural sobre a parede com a imagem de Jesus Cristo, Nossa Senhora e o Papa Francisco — três imagens sagradas diferentes para tentar tatear no que se pode acreditar quando seu chão lhe é tirado de você. A imagem é seguida de cântico folclórico da região cuja letra arremata muito bem o amor à terra que os prende a todos lá e lhes estimula a resistir e lutar.