Vip é a boa comédia

Grife de requinte estético, Toniko Melo abre um debate sobre identidade na arte com Leandro Hassum em 'Chorar de rir', um candidato a 'blockbuster'

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15 de março de 2019

77 Chorar de rir 77 TM

Rodrigo Fonseca
Com estreia marcada para 21 de março, “Chorar de rir” é a primeira grande comédia nacional de 2019, candidata nata ao posto de blockbuster pela presença de Leandro Hassum, agora sob a direção refinada de Toniko Melo – uma grife que faz diferença estética. O filme anterior do cineasta, “VIPs”, venceu o Festival do Rio de 2010, mas não teve o carinho merecido de público e crítica. Pelo menos não um carinho à altura de toda a inteligência cênica do realizador, que abre agora um emotivo debate sobre o lugar de honra que falta aos comediantes brasileiros. Hassum é Nilo Perequê, uma estrela de um programa de gargalhadas que flerta com o drama ao se sentir desprestigiado, almejando uma montagem de “Hamlet” como trampolim para o respeito. Mas um elemento mágico – um feitiço encomendado a um místico vivido por Sidney Magal – tira seus planos do prumo, iniciando uma jornada em busca da autoafirmação e identidade perdida – tema da obra de Toniko. Impressiona no longa todo o requinte plástico da direção de arte de Marghe Pennacchi (espertíssima na seleção de cor dos objetos de cena) e da luz saturada (na medida certa) do fotógrafo Ulisses Júnior Malta. No doce recheio do filme, há algo das comédias americanas dos anos 1980 padrão Steve Martin, em especial “Um espírito baixou em mim” (1984), mas também um toque de Ronald Golias e sua “Família Trapo”. Perequê, personagem de Hassum é uma espécie de Bronco, com um manancial de improvisos à altura do de Golias, só que empenhados para a construção de uma figura tridimensional, que vá além das peripécias e seduza a plateia por sua riqueza de afetos.

Existe um tom afetivo em “Chorar de rir” que evoca o humor de gênios como Frank Tashlin, o realizador de grandes sucessos de Jerry Lewis, como “Artistas e modelos”. Que humor é esse que você buscou aqui?
Toniko Melo:
Um humor com clima dos filmes da “Sessão da Tarde” da Globo, daqueles em que você ri e chora, tipo se dá quando a gente curte um longa da Pixar. Existe uma obsessão na crítica e em outras áreas de se desprestigiar a comédia. Este filme fala do valor do gênero numa mistura de amor e emoção.

Uma mistura que se impõe aos olhos pela qualidade plástica. Qual foi o parâmetro usado na construção visual do filme?
Toniko Melo:
Tem um colorista do filme que fez “Relatos selvagens”. A gente gravou a trilha com a Filarmônica de Budapeste. Tem um esforço por qualidade, mas que pode ser conseguido aqui. Tem um time de grandes profissionais brasileiros. Tem uma questão de qualidade em nossas comédias que se misturam com questões afetivas que já estão presentes na linha que a Ingrid Guimarães busca, no Paulo Gustavo. A questão não é fazer pra ser sofisticado. A questão é fazer bem para respeitar o público.

Qual é o lugar da solidão no seu cinema?
Toniko Melo:
Havia uma cena, que acabou sendo cortada, na qual Nilo, falido, vendia seus móveis e acabava sozinho, em sua sala vazia, com uma caveira na mão. Mas acabei cortando. A resolução de Nilo é com ele mesmo. Isso já mostra a solidão. E, mais do que isso… você quer solidão maior do que a sensação de ser ignorado num meio onde se considera igual aos outros.