Visitas ou Memórias e Confissões

Confessionário póstumo como um baú do tempo enterrado no jardim de casa

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05 de julho de 2016

O cineasta português Manoel de Oliveira foi para o livro Guinnes dos recordes como o diretor mais longevo a trabalhar no cinema. Morreu com 106 anos. E ainda conseguiu a proeza de não apenas filmar até sua morte, como deixar um presente póstumo junto com seu testamento. Quem diria que algo filmado em 1982 poderia ter sido guardado de forma inédita a sete chaves para apenas vir à tona após seu falecimento como um legado autoconsciente? Este é “Visita ou Memórias e Confissões”. Um confessionário bastante sincero perpassando pelos cômodos da própria casa, ao som de sua narrativa biográfica até então, reconhecendo erros e acertos e até dando o reconhecimento merecido à esposa que tanto o apoiou e ajudou a produzi-lo.

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Poderia apenas interessar a um nicho de fãs do saudoso diretor, ou de estudantes de cinema pela curiosidade do feito, mas será que consegue transcender a metalinguagem e alçar status de obra autônoma e acessível em valor próprio?

Com pouquíssima auto-aparição na frente das câmeras quase como se fosse uma selfie à frente de seu tempo, quem diria que o gênio lusitano iria ser tão relevante retroativamente. Por incrível que pareça, se talvez tivesse lançado este trabalho na década de 80, não teria alcançado tamanha catarse. Fincou mais uma vez seu nome na história dos recordes com um baú do tempo. Ao contrário de “Boyhood” que filmou por 12 anos uma mesma história, engrandeceu seu passado, ressignificando uma mesma história com muitas outras que se seguiram.

visita2E aproveita o corpo da casa de dois andares como fio condutor. Invade quartos e banheiros, escapa por janelas e jardins, apenas para voltar para a mesma simplicidade com que viveu, como se mostrasse de que forma escreveu algumas de suas maiores obras na escrivaninha de seu escritório. Ou mesmo cogitar se ter o privilégio de o próprio cineasta fazer uma projeção caseira na parede de casa com seus rolos de filmes, explicando seus pensamentos.  Tudo desvelado pela luz da câmera sobre as sombras de seu método criativo. É impressionante se ver a influência que sua família e filhos, e o quanto admite até tê-los negligenciado em prol do cinema, influenciou suas obras. Não teríamos o mesmo realizador sem tais auto-sacrifícios. E hoje, quase um pedido de desculpas e um reconhecimento de valor através do público que formou e pode lhe redimir. Especial menção para a lírica cena de sua esposa colhendo flores ao som de sua narrativa de amor.

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Há um quê hermético para o grande público, mas qualquer espectador tem o potencial de se sensibilizar com um túnel do tempo catalisador em tentar mudar o passado para reinventar o presente para uma família cinematográfica que é a plateia.

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