Você e os Seus

Brincando com as diferentes percepções da realidade através da repetição freudiana

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11 de outubro de 2016

É até injustiça colocá-lo na panela da enxurrada de filmes no Festival do Rio, pois o coreano Sang-Soo é daqueles diretores tipo Woody Allen, com praticamente um filme por ano, e até um filme mediano seu está acima da média, sempre com crônicas sobre relacionamentos através da fugacidade da memória ou da inconstância do tempo na evolução social. São filmes de extrema simplicidade na forma, em geral com poucos personagens e diálogos sensacionais, mas é em seu roteiro que o diretor mostra seu rigor transposto às ideias. Seus personagens raramente são apenas o que parecem ser, em geral afetados por alguma(s) reviravolta(s) narrativa.

Ano passado ele teve não um, mas DOIS filmes no Festival, sendo um deles com certeza uma das maiores obras-primas de sua carreira: “Certo Agora, Errado Antes”, em que trabalhava a arte das coincidências divergentes que podem mudar a forma como encaramos um mesmo destino de formas tão sutis…Nossa percepção é que muda as relações, a dos personagens e as nossas, como a parada surpreendente no meio do filme fazia parecer que havia acabado a história pela metade….até rebobinare exigir uma nova naturalidade de seus atores pra interpretarem tudo de novo, igual, mas diferente. Assim como usa a repetição freudiana como num divã em todos os seus filmes, para psicanalizar as feridas através de encará-las mais de uma vez sob ângulos diferentes…

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Agora com “Você e os Seus” ele volta em grande estilo, pois decide dar menos formalismo ao “truque” narrativo usado desta vez, e sim torná-lo mais fluido e enganoso ao texto. Um homem duvida da mulher que ama porque seus amigos fofocam que a vêem bebendo com outros homens. MAS SERÁ? O filme passeia por várias hipóteses para o espectador adivinhar (ou não) sobre a condição da moral moderna, em muito construída sob o viés do homem, então, como seria ver os mesmos atos realizados por uma mulher? Será que ela tem uma irmã gêmea? Dupla personalidade ou dissimulação? Apagão alcoólico ou perda da memória recente? Ou mesmo nenhuma destas respostas? Esta contratranposição de imagens que enganam, lição ensinada nos primórdios ao Cinema pelo mestre russo Eisenstein, bebe aqui da fonte de filmes recentes como “Melinda Melinda” de Woody e “Time” de outro mestre coreano Kim Ki Duk, mas continua a firmar seu próprio universo,como se todos seus personagens vivessem um ao lado do outro e pudessem se entrecruzar e trocar de casais. O naturalismo vai além do elenco,capitaneado pela dubialidade graciosa da protagonista Lee Yoo-Young, e perpassa pela câmera com deslocamentos e closes fluidos assinaturas do diretor, que realçam surpresas de expressões e gestos corporais, todos enganosos frente ao psicológico da mente humana. As luzes quentes em cenas noturnas também ajudam a aproximar dos personagens e em nenhum momento julgá-los, mesmo sem entendê-los,de propósito, pois é a intriga do engano quem leva a narrativa à frente. Sem falar que contém algumas cenas hilariantes de constrangimentos dos personagens.

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Uma das grandes interpretações femininas de todo Festival, junto com Sob a Sombra e Paraíso, aqui, ressignificando as expectativas do que é a postura social da mulher, pois sua personagem estraçalha com as dicotomias de gênero, mostrando que somos todos iguais. Mesmo com final aparentemente feliz, o que pode ser interpretado como uma concessão ante a mais típica veracidade fugaz com que Sang-Soo insere seus casais, na verdade pode ser interpretado como uma ironia da vitória da percepção sobre a real verdade.

Festival do Rio 2016 – Panorama do Cinema Mundial

Você e os Seus (Yourself and Yours)

Coréia do Sul, 2016. 86 min

De Hong Sang-Soo

Com Kim Ju-Hyeok, Lee Yoo-Young

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5