Voo de Ícaro de Steve McQueen

Documentário sobre o saudoso astro "SteveMcQueen: The Man & Le Mans"

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09 de outubro de 2015

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Quando Ícaro não deu ouvidos ao conselho de seu pai, Dédalo, e voou muito perto do Sol, acabou tendo derretida a cera que colava as penas de suas asas e caiu no mar Egeu, morrendo afogado. Essa passagem da mitologia grega serve como uma direta lição: não se deve ser imprudente a ponto de voar mais alto do que as asas permitem, pois há risco de tombar. Da história, ficou também a expressão Voo de Ícaro, que talvez seja um título apropriado para o documentário “SteveMcQueen: The Man & Le Mans”.

 

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Dirigido por Gabriel Clarke (responsável pelo roteiro) e John McKenna, o longa é uma bela reflexão sobre como a obsessão pode levar ao fracasso, tomando como exemplo o caso de Steve McQueen, que em 1971 era o ator mais famoso do planeta: tinha ganhado duas vezes, em 1967 e 1970, o Henrietta Award no Globo de Ouro, prêmio dado aos atores favoritos (World Film Favorite). McQueen vinha de vários sucessos seguidos, de bilheteria e crítica, com os filmes “A mesa do diabo” (1965), “Nevada Smith” (1966), “O canhoneiro do Yang-Tsé” (1966, que lhe rendeu indicação ao Oscar), “Crown, o magnífico” (1968) e “Bullitt” (1968). Com Hollywood ajoelhada a seus pés, The King of Cool (O Rei do Pedaço, em tradução livre) investiu na carreira de produtor e quis adquirir o controle total sobre seus filmes, garantindo o corte final e a visão artística de seus projetos. Com um cheque em branco nas mãos, ele resolveu juntar duas de suas paixões: cinema e automobilismo – McQueen era um aficionado, tendo demonstrado talento em diversas disputas profissionais de carro e moto desde o início dos anos 60.

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Em 1962, ele começou a sonhar com a possibilidade de fazer um filme sobre o esporte com o projeto “Day of the Champion”, mas, em 1966, a Warner Bros cancelou a empreitada, por causa do filme “Grand Prix”, estrelado por James Garner e lançado no mesmo ano. O longa com Garner era mais um novelão, diferente do que McQueen queria fazer: transportar o espectador para dentro do veículo durante uma corrida, para que ele pudesse sentir toda a adrenalina. Seu desejo era fazer o filme definitivo sobre o assunto, em que não seria só o ator, mas também o autor.

Steve+McQueen+Man+Le+Man

Nove meses antes de iniciar as filmagens, McQueen desistiu de ir a uma festa na casa de Sharon Tate, por causa de um encontro com uma loura (era um mulherengo inveterado). Isso acabou salvando sua vida, pois foi nessa ocasião que Charles Manson cometeu a famosa chacina, e McQueen era o primeiro nome na lista de morte do psicopata. O ator ficou tão paranoico que tirou uma licença para portar uma arma que passou a carregar em todas as suas viagens. A mania e o perfeccionismo aumentaram durante as filmagens. Ele reuniu pilotos profissionais e a melhor equipe técnica sobre o tema para fazer o registro da tradicional e charmosa 24 Horas de Le Mans, principal prova do Campeonato Mundial de Endurance da FIA (competição organizada pela Federação Internacional de Automobilismo) e considerada a maior corrida do planeta. A prova de resistência, que dura 24 horas, é disputada anualmente desde 1923, no Circuit de la Sarthe, na cidade de Le Mans, na França.

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Da mesma forma que o diretor Francis Ford Coppola fez em 1978, para conceber “Apocalypse Now”, MacQueen construiu uma vila, para montar toda a estrutura necessária para fazer o filme, perto do circuito em Le Mans. Como era costume na época, iniciou as filmagens sem ter um roteiro. Foram semanas e mais semanas registrando imagens espetaculares dos carros na pista, com um aparato que até hoje é usado pelas produções atuais que não recorrem aos efeitos especiais em CGI. Tudo foi feito de maneira mais realista possível. Nenhum outro filme sobre automobilismo conseguiu capturar melhor como acontece uma corrida. Depois de seis semanas, o diretor John Sturges, responsável pelos sucessos “Os Sete Magníficos” (1960) e “Fugindo do Inferno” (1963) com McQueen, abandonou a produção por não ter conseguido filmar uma cena sequer com diálogos ou alguma dramaturgia. Sturges disse na época que “estava muito velho e muito rico para aturar aquele merda”. Ele nunca mais quis trabalhar com McQueen, e não se falaram mais. Depois do orçamento estourado, e sem um roteiro, o estúdio acabou recuperando o controle do projeto. Apesar de tudo, ainda impressiona a multivisão dos carros, dos pilotos e da pista nas cenas filmadas. São tomadas de vários ângulos estilosos, a maioria feita a 330km por hora – não só o que está sendo capturado, mas também os veículos que estão capturando.

 

A grande pergunta do filme de Gabriel Clarke e John McKenna é: por que algo que parecia tão certo deu tão errado? O filme foi um fracasso em todos os sentidos. Para entender a razão disso, Clarke e McKena fizeram um trabalho minucioso de pesquisa, após encontrar quase quatro horas de filme nos Estados Unidos e na Europa que nunca foram vistas. Eles entrevistaram todos os envolvidos nas turbulentas filmagens que duraram impressionantes seis meses. Os depoimentos conflitantes são ilustrados por imagens atuais e da época, e o longa ainda conta com o próprio McQueen colocando suas conclusões, por meio de uma entrevista recuperada, somente com som, que acaba se tornando a condutora da narrativa. Alguns acontecimentos foram dramatizados e narrados por aqueles que estavam lá. Tudo milimetricamente editado, com várias histórias comprovadas por documentos de que o público não tinha conhecimento. Clarke e McKenna completam as lacunas com uma abordagem rica em detalhes.

 

Em um primeiro momento, “Steve McQueen: The Man & Le Mans” parece só mais um documentário sobre as filmagens para os iniciados e fãs do assunto. Mas os mais atentos às camadas de significado nas entrelinhas vão perceber que o mote é um mero condutor para algo mais profundo: o comportamento do obcecado, aquele que tem uma ideia fixa e persistente que determina sua conduta. A origem da palavra obcecado no latim, obcaecare, indica um estado de cegueira – uma ideia que acumula um sem-número de exemplos na história da humanidade a ensinar que prosseguir sem limites gera a falência total, em vez do sucesso no cumprimento dos objetivos. Não saber lidar com a frustração da derrota costuma provocar feridas incuráveis. E as filmagens de “As 24 horas de Le Mans” deixaram marcas em todos os envolvidos, de uma forma ou de outra. McQueen nunca mais participou de uma corrida. Sua desilusão foi tanta que ele resolveu dar as costas para o esporte que foi sua primeira paixão. E cada vez mais se tornou um recluso. No final, Steve McQueen perdeu sua mulher, sua família e sua paixão pelo cinema.

 

Apesar de McQueen voltar ao topo um ano depois com “Os implacáveis” (1972) e se manter no auge com “Papillon” (1973) e “Inferno na torre” (1974), a mágoa foi tão dolorosa que nem essas vitórias trouxeram sua recuperação. Seu maior sonho não realizado acabou sendo mais um fator, junto com o fumo e o amianto (causa de intoxicação no ator, que foi da Marinha, onde se pode ter contato com a substância, além de o macacão à prova de fogo dos pilotos também levar esse componente), para o avanço do câncer que lhe tirou a vida em 1980. “Steve McQueen: The Man & Le Mans” é um acerto de contas necessário, em respeito ao artista e à sua visão única.

 

Avaliação Mario Abbade

Nota 5