Winona

Praia paradisíaca e catarses em grupo

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03 de novembro de 2020

Por fim, porém não menos importante, há títulos memoráveis na história do cinema também de uma só palavra, misteriosa o suficiente para conter toda a atração pelo filme, que vão de “Topkapi”, de Jules Dassin (1964), “Topázio”, de Alfred Hitchcock (1969), aos recentes “Guaxuma”, de Nara Normande (2018), e “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019). Entretando, na Mostra de SP, você também poderá encontrar alguns filmes assim, como o grego “Winona”, de Alexandros Voulgaris (2019), um dos filmes disponíveis gratuitamente na parceria com a plataforma Sesc Digital.

A própria sinopse já é intrigante: quatro jovens mulheres se divertem o dia inteiro numa praia deserta, mas nenhuma delas se chama Winona… Então, de onde vem este nome? A única coisa que se sabe é que um carro ocupado por pessoas cuja identidade ainda é uma incógnita se encontra estacionado no alto da praia, sempre a observarem as jovens, bem como uma imponente construção se eleva sobre suas cabeças ao final dos montes que cercam aquele pequeno paraíso, mas cuja propriedade é igualmente desconhecida.

Num desenrolar lúdico, entre a brincadeira inocente e algumas camadas dolorosas escondidas entre as cenas de cura, é evidente que existe algum trauma ali a ser tratado. As quatro atrizes estão ótimas, e vão sendo desveladas por uma fotografia sutil de Simos Sarketzis, que não as exotifica nem as demove de agência própria. Muito pelo contrário, elas fotografam a si mesmas várias vezes, evocando subjetividades e autonomia sobre seus movimentos e corpos.

Existe uma dor muito grande sobre estas ensolaradas expressões que vão desde cantarem à beira da água, a disputarem conhecimentos sobre filmes de Woody Allen numa das cenas marcantes da projeção. Mas é em seu desfecho que você saberá o sujeito oculto desta equação, e interligará os pontinhos – ainda mais com as cenas que rolam durante os créditos finais que aludem à força do tempo e da apropriação daquela praia contra as memórias pessoais e eternas dos indivíduos. Agridoce e sensível.