Winter Sleep

O Frio também pode queimar na Crônica Social de Ceylan, ganhadora da Palma de Ouro em Cannes 2014

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30 de abril de 2015

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O turco Nuri Bilge Ceylan é um cineasta único. Ele reflete sobre as diferenças de classes através de alegorias sombrias que mostram manchas em todas as hierarquias sociais, contanto que as próprias personagens não sejam cegas para enxergar isso, como em sua obra-prima “Os Três Macacos”, aludindo ao notório conto chinês onde um macaco tapa os ouvidos para não escutar, outro os olhos a fim de não ver e o terceiro a boca, evitando se pronunciar, na típica história sobre empregado que assume crime pelo patrão. Continuando sua crônica de classes, desta vez nas montanhas geladas da Turquia, ele mostra que a frieza (humana) também pode queimar, contrapondo mais do que a visão política do subordinado versus opressor, e sim a desagregação familiar na discordância do íntimo do lar, onde um patriarca que não se consideraria intolerante ou preconceituoso, acaba percebendo que pelos próprios usos e costumes culturais, sufocava aqueles que dependiam dele.

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Esta sutileza de Ceylan, de não criar vontades inimigas entre si, mas apenas conflitos de interesses polarizados, enriquece a trama como a um espelho partido. Não é a primeira vez que o tema é abordado, mas decerto o faz com precisão cirúrgica e diálogos nevrálgicos a ponto de cortarem a alma. Isto é uma forma de filmar completamente diferente da ocidental, e que merece público afora do circuito mais comercial. Mesmo contendo mais de 3 horas de duração. Afinal, quando se tratou do desfecho da Trilogia “O Senhor dos Anéis”, a audiência não se importou com as quase 4 horas de projeção, além de ter se empacotado de Oscar, 11 ao todo. Ceylan também levou, logo a Palma de Ouro em Cannes 2014 por esta obra que reúne todos os pontos fortes de sua carreira. O que comprova a possibilidade de se superar a tênue dicotomia entre blockbusters, que podem ter qualidade e reconhecimento, e filmes tidos como de arte, que podem ser abraçados e digeridos pelo grande público.

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O que facilita é a acidez dos diálogos, combinados com extrema lucidez humana de fácil identificação, tudo para contar a história de um homem mais abastado numa região humilde, na pele do profundo Haluk Bilginer, que poderia alçar outros vôos, mas aceita ficar ali em um mundinho cerrado que criou para si, apenas pelo prazer que tem de controlar sua jovem e cobiçada esposa, a irmã contestadora, e os inquilinos endividados. As relações de poder e honra vão cambiando no que parece dividir o filme em três tomos e uma conclusão: o primeiro marcado pelo embate do patriarca com os inquilinos; depois com a irmã, papel extremamente inusitado e bem desenvolvido por Demet Akbag; e enfim com a esposa, ate gerar uma conclusão que defronta todos. Mas o marco maior definitivamente fica com a personagem da irmã, que muda a visão do patriarca perante todos com a aparente ideia louca de que não se deve oferecer resistência ante uma força que lhe seja negativa, e sim dar a cara a tapa, pois somente na derrota voluntária é que se mostraria real vitória moral, fazendo cessar o ciclo interminável de vingança. Isto cambia todos os valores do filme para um ângulo inovador, fazendo jus ao frio intenso da locação, título e roteiro. E se simplesmente nos entregássemos à inação congelante sem ativar uma reação em cadeia que só aumenta a dor? É assim que ganham mais força cenas antológicas como a caça ao coelho, a cena da lareira, ou a do vômito nervoso do filho dos inquilinos humildes ante a piedade humilhante do senhorio, seguida de outra cena em que um cavalo está atolado num rio e os espectadores são compelidos a admitir em seu íntimo de qual parte sentiram mais compaixão: do animal em sofrimento, que geralmente provoca comoção mais fácil, ou da criança contrita cuja dor é muito mais sutil e despercebida?

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