Em Busca do Sentido da Vida

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03 de outubro de 2014

E se decidirmos não ter mais os nossos sentidos básicos? No filme “Em Busca do Sentido da Vida” é o que o personagem Clive, um adolescente que está em um processo de descobertas, se desafiou a fazer. Em cada semana, ele experimenta uma perda individual. A da audição, da fala, e a da visão, independente do que pensarem: seja o professor de teatro, sua mãe ou o cara que mora com ele.  O garoto leva seu caderninho consigo para registrar suas experiências, que contém perguntas sobre a existência, o plano sensorial, a relação das pessoas com a sua abstinência, e como isso modifica ele e o mundo em sua volta. Até que encontra Xécile, uma garota que decide abordar e conquistar enquanto está mudo, e que aos poucos vai cedendo e se abrindo as propostas de Clive, á ponto de se envolver como cúmplice na saga dos sentidos. Aaron, o garoto intolerante e interesseiro que convive com ele também decide participar, na semana da cegueira, até chegarem a uma situação extrema. Mesmo assim, o protagonista insiste em prosseguir, mas que irá partir para um novo desafio onde novamente irá testar seus limites, como alguém que está sempre, á margem da vida.

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O filme é dividido em três partes, que representam cada sentido humano, o que deixa o espectador ansioso para saber quando e como será o próximo relato. Ele vai envolvendo silenciosamente e internamente a platéia, de modo que você também esteja vivendo fisicamente esse momento, como apenas o barulho do som abafado quando se perde a audição, e o incômodo que a luz causa ao retirar a gaze do olho, após uma semana sem enxergar. Existem cenas de tela preta com cada palavra da frase escrita para Xécile, e imagens de anotações, que vem com perguntas aparentemente banais, mas são essenciais em seu processo de auto-descobrimento, e como ele mesmo diz, de auto-cura.

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Além de muitos cenários naturais, como a praia, a floresta, e lugares abertos, é tudo gravado de uma forma tão íntima, que não se nota que está ouvindo um relato á distância, mas que você prova da sensação do personagem, para despertar em você o desejo de estar ali. Sol Mason, o ator que faz Clive te faz crer que ele é o autor da experiência, quando na verdade a trama é parte ficção, parte realidade, vivida pelo próprio diretor. A fotografia é como um zoom no rosto de Clive á cada momento de descoberta, o que mostra que o roteiro é algo bem simples e espontâneo, o que torna difícil o encontro de elementos no filme, que inicialmente foi feito em um orçamento muito pequeno, que não sejam perfeitos para o projeto de produção. A única possível falha foi a escolha da atriz coadjuvante, que é completamente ofuscada pela maestria do ator que representa Clive, o que não compromete em nenhum momento o filme como um todo.

A trama também é toda marcada por súbitos cortes onde o personagem está sentado e fala como se tivesse sendo entrevistado sobre como se sentiu, porque começou essa idéia, como isso surgiu, enriquecendo a veracidade do filme. A trilha sonora é de sons internos de Clive, e de momentos em que tudo fica mudo, para mostrar o mundo interno, e é sempre um jogo entre o que está dentro e fora do personagem. Poderíamos até dizer que ele seria um documentário, mas é muito mais do que isso, parece uma ficção dentro do registro de uma experiência de um garoto carregado de curiosidade. Não é um filme qualquer, apenas para profissionais do assunto, e nem para os amantes de filmes populares, é algo feito e obrigatório para qualquer pessoa que ouça, fale e/ou veja. Uma experiência inesquecível, que vai te acompanhar até o fim do dia, do dia seguinte, e assim por diante.

Mostra Expectativa 2014

Título: “Simple Being”

Direção: Marco Ferrari

Estados Unidos/Itália – 1:32m

Elenco: Sol Mason, Jasmin Radibratovic, Jeff Adler