A atualidade das Produções da Bel-air Cinematográfica

Relembrar é trazer a cultura à luz do presente para as novas gerações

por

23 de agosto de 2019

FB_IMG_1566577645262

Parece HOJE, mas foi ONTEM, e pode voltar a ser nosso AMANHÃ…

Só estudando o passado e as táticas de resistência e perseverança dos que vieram antes, passaram por situações extremamente similares, e TRIUNFARAM, é que estou conseguindo manter alguma sanidade. Replico abaixo parte de trecho de arquivo sobre a perseguição na época da Ditadura Militar à Produtora de Cinema Bel-Air (1971), do trio Rogerio Sganzerla, Helena Ignez e Julio Bressane, aqui nas palavras transcritas deste último numa entrevista para o documentário “Belair” de Bruno Safadi (2009):

Por conta do contexto sociopolítico no qual estava inserida, a Bel-Air, para ter suas produções cinematográficas reconhecidas oficialmente enquanto filmes brasileiros, precisava submeter as mesmas aos órgãos de censura, o que escolheu não fazer, colocando em risco a garantia de sua circulação. Isso teve como consequência um status de clandestinidade para a produtora, que, em contrapartida, investia na defesa de uma expressão autoral e maior liberdade de criação e foi perseguida por isso:

“Uma noite tava eu na sala de mixagem da Rua México, chegou lá meu pai e me disse que havia uma denúncia muito grave contra mim e contra o Rogério também. Desses filmes que nós estávamos fazendo. E que eu devia ir com ele na casa de um general, que era o general Sílvio Frota, comandante do primeiro exército naquele momento, que ele queria falar. Eu fui lá – foi de noite, eu lembro, era em frente ao Maracanã, uma casa que tinha ali, cor-de-rosa, do exército – ele me recebeu, e me disse que havia um relatório contra mim – apontou o relatório, eu não vi, mas me mostrou assim com a mão – e que ligava esses filmes da Bel-Air, ou pelo menos esses filmes que estavam interditados lá, inclusive Matou a Família e Foi ao Cinema, sobretudo, a um plano de subversão nacional. Disse que esses filmes eram com o dinheiro do terrorismo, Marighella, uma coisa sem fundamento nenhum. Era um cinema simpático a isso, sem dúvida. Mas ele não determinou cortes na Família do Barulho, ele interditou A Família do Barulho. (…) Aí o Severiano chegou pra mim e falou ‘olha, tá difícil, estamos em outro momento, não sei porque, questões de política…’. Foi aí que quebrou o negócio. Com isso, em uma semana nós saímos do Brasil. Eu levei com o Rogério o Cuidado Madame e o Sem Essa, Aranha pra Paris, revelei, montamos, e tiramos cópia dos dois filmes na França. Terminamos os filmes e foi de fato o fim da Bel-Air.” – Júlio Bressane em Belair (2009)”

Fotos abaixo:
1) Helena Ignez e Rogerio Sganzerla.
2) Rogerio Sganzerla, José Mojica Marins (Zé do Caixão), Julio Bressane e Ivan Cardoso em cena do documentário “Horror Palace Hotel” de Jairo Ferreira.

FB_IMG_1566577645262 FB_IMG_1566577647655