A Grande Jogada

Filme marca ótima estreia de Aaron Sorkin na direção e Jessica Chastain brilha mais uma vez em papel de mulher empoderada

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21 de fevereiro de 2018

Estreia de Aaron Sorkin na direção, “A Grande Jogada” traz Jessica Chastain novamente em um papel de uma mulher forte e poderosa, parecida em diversos aspectos com sua personagem em “Armas na Mesa” (2016). Quase todo narrado em off pela protagonista, o longa começa mostrando ao público o passado de Molly Bloom (Chastain) e explicando sua trajetória até ficar conhecida como Princesa do Pôquer de maneira muito frenética e didática, marca registrada do Sorkin roteirista. Baseado na autobiografia da própria Molly, o filme gira em torno da personagem-título (“Molly’s Game”, no original), uma ex-esquiadora profissional que se muda para Los Angeles para conseguir um dinheiro extra trabalhando como garçonete e acaba envolvida no submundo da jogatina ilegal, conseguindo se tornar a maior organizadora dos jogos de pôquer mais exclusivos da região, até ser pega pelo FBI.

Assim como em “A Rede Social” (vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Adaptado), “O Homem que Mudou o Jogo” (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado) e “Steve Jobs”, outros três filmes biográficos escritos por Sorkin que possuem temas cujos detalhes técnicos são desconhecidos por grande parte do público, “A Grande Jogada” não pretende ensinar regras de pôquer ao espectador, e nem é necessário entendê-las para conseguir compreender e mergulhar na trama, já que o que realmente importa ali é a construção da personagem Molly e seu envolvimento com a ilegalidade das partidas de pôquer, enquanto tenta manter-se na legalidade. Sem a adrenalina das competições de esqui em sua vida, Molly preenche a lacuna com a adrenalina de comandar mesas de pôquer ilegais com astros de Hollywood como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Ben Affleck, além de grandes magnatas, líderes mundiais e até a máfia russa, sem precisar da inclusão de um interesse romântico, algo raro quando o assunto é cinema, principalmente o hollywoodiano.

Apesar do habitual didatismo no roteiro, os diálogos escritos por Sorkin são ágeis e inteligentes, como os jogos de pôquer gerenciados por Molly. É com Charlie Jaffey, advogado interpretado por Idris Elba, que ela tem os maiores embates de palavras por discordância sobre sua defesa – mesmo após 2 anos longe das mesas clandestinas e das drogas, Molly quer manter a ética com seus antigos clientes e não entregar seus nomes em beneficio próprio. Elba consegue se destacar apenas numa cena próxima do final do filme, em que discursa para defender sua cliente perante o FBI; ele funciona como uma espécie de apoio para aumentar ainda mais o brilho de Chastain, pois ela é o filme. Kevin Costner surge como coadjuvante de luxo vivendo o exigente pai de Molly, com quem tem uma relação complicada – ao lado de “Eu, Tonya” e “Lady Bird – A Hora de Voar”, este é o terceiro longa na corrida do Oscar 2018 a retratar conturbadas relações parentais –, enquanto Michael Cera está lá como Jogador X, apenas para representar o astro de Hollywood que dominava as noites de pôquer da época, que especula-se ser DiCaprio ou Maguire.

Apressado, o desfecho do filme não faz jus ao restante do enredo com a cena do esperado julgamento de Molly: em vez de empolgar o espectador, deixa uma sensação de incompletude, que poderia ser facilmente resolvida retirando alguns minutos de outras cenas que pouco ou nada acrescentam ao desenvolvimento da trama. Como a maioria das obras do gênero biográfico, “A Grande Jogada” não traz nada de novo no que diz respeito a formato e desperta curiosidade justamente por se tratar de uma história real, mas ganha pontos por não cair na pieguice como “O Destino de Uma Nação”, outra biografia concorrente do Oscar que se apoia no talento e competência de seu protagonista. Terceiro filme roteirizado por Sorkin indicado a Melhor Roteiro Adaptado, único prêmio a que o filme concorre, a Academia perdeu uma grande oportunidade de merecidamente indicar Jessica Chastain na categoria de Melhor Atriz, como fizeram o Globo de Ouro e o Critics Choice Award, para decepção dos fãs. Fica para a próxima.

 

A Grande Jogada (Molly’s Game)

EUA – 2017. 140 minutos.

Direção: Aaron Sorkin

Com: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner e Michael Cera.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4