A Liberdade é Azul

Como a pandemia e a quarentena estão redimensionando e ampliando muitos filmes e significações

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27 de janeiro de 2021

Chorar é inevitável. Quem não se pega às vezes chorando espontaneamente no dia a dia diante do que está acontecendo? Pode ser uma coisa qualquer na prateleira do mercado…pode ser algo no jornal. Pode ser uma mensagem de amizades. Dá vontade de chorar. Às vezes no banho, cantando sob o chuveiro… as lágrimas escorrem junto com a água. Como diria Beth Carvalho, como água de chuva no mar.

Assim como na música, certas imagens também marcam a gente. Uma das maiores marcas na representação cinematográfica da minha vida é Juliette Binoche em “A Liberdade é Azul”. Um dos maiores filmes na história sobre o luto. Estamos precisando ressignificar diálogos com imagens que possam nos ajudar a cooptar com o luto que todos estamos passando. São mais de 200 mil perdas só no Brasil. Todo mundo perdeu alguém direta ou indiretamente ou conhece alguém que perdeu, e compartilha essa dor.

Em “A Liberdade é Azul” temos uma Juliette Binoche lidando com a dor imensurável da perda de toda a sua família num acidente. Algo impensável, e cuja realidade foi atualizada e de forma dolorosa e bastante recorrente com a pandemia recente. Uma coisa que algumas pessoas desconhecem, contudo, o que pode parecer um detalhe sutil, quase estranho, é que o diretor, o grande e saudoso mestre Krzysztof Kieślowski, pediu para Juliette não chorar no filme. Desde o teste de elenco ele disse que ela não poderia chorar…

Juliette não havia entendido muito bem de início (há entrevistas da época em que ela fala sobre isso). Afinal, como poderia alguém que passou por aquela perda atroz e tamanha não chorar? Poderia estar tão estuporada, tão anestesiada pelo choque e impacto que a ficha poderia não ter caído ainda? Poderia estar em negação? Bem, perder uma pessoa talvez poderia gerar isso, mas toda uma família de uma vez? Perder seu norte e sua motivação diária?

Porém, quando você assiste ao filme, e adentra naquele universo de simbologias e códigos visuais extremamente sofisticados do naipe de Kieślowski, você finalmente compreende o que ele quis dizer. Juliette mantém apenas uma única rotina religiosamente o filme inteiro, mesmo tendo perdido todas as suas referências. Ela vai nadar na piscina pública todos os dias, sem falta, a deslizar toda a sua dor contra o peso da gravidade na água, braçada após braçada, empurrando qualquer força contrária com o ímpeto de seu corpo. Sempre à frente.

Mas não só. Você apenas pensa que não a vê chorar o filme inteiro. Suas lágrimas se misturam com a água da piscina. Com as ondas criadas por suas próprias braçadas. Seu rosto sempre molhado, submerso, inundado, transbordante. Você não vê o ato, você vê a consequência do ato. Você já sabe a causa, porém dá mais valor ao efeito. Você sabe os fatores que se somam, mas duvida até ver o produto de sua soma, senão se sente furtado da explicitação do óbvio.

Você pensa isso porque não pode ver. Mesmo com tantos mistérios da vida, mesmo com tanto que não somos (ainda) capazes de explicar (e talvez nem devemos tentar, pois parte da graça da vida reside no mistério), ainda somo extremamente como São Tomé. Precisamos “ver pra crer”. Mesmo no cinema… o que é paradoxal, já que boa parte da magia do cinema é fingir que nos mostra algo, quando na verdade trabalha arduamente pra não mostrar. Binoche não lhe mostra suas lágrimas, mas isso não quer dizer que não está sofrendo ou chorando por dentro… não quer dizer que não sente até mais do que qualquer representação poderia mostrar. Curiosamente, aquilo que mais nos é ocultado, de nós e de si mesma, é o mesmo que nos reforça e imortaliza a sensação de nos sentir representados. Como se ela conseguisse lidar na tela com o inimaginável que também estamos tentando lidar na vida.

Já vi esse filme muitas vezes na minha vida. E continuarei vendo. E a cada vez algo novo sobrevém. Desta vez foi a realidade que sobreveio ao filme. E desdobrou novos significados a ele. Amo isso de a vida poder ser atravessada de conexões e emoções a partir de imagens e afetos que o cinema e a música nos traz. E vice versa. Pra vocês pode ser só uma imagem. A foto de uma imagem. Pra mim é todo um complexo de sensações à flor da pele. Querem compartilhar? Pois (re)assistam ao filme e venham depois me contar o que acharam! Duvido que pensem da mesma forma depois disso. Aposto com vocês. Querem cobrar?