Anita – Speaking Truth to Power

Abuso de poder

por

04 de janeiro de 2019

“Anita – Speaking Truth to Power” de Freida Mock

É impressionante como em um caso tão paradigmático e referencial de assédio e abuso de poder no início dos anos 90, os senadores que “julgaram” o caso já tratavam a própria testemunha autora da denúncia (a personagem título Anita Hall) como se fosse a acusada. Eles atuaram como uma banca inquisitória que representava todos os preconceitos e sensos comuns tóxicos de inúmeros estados e cidades americanas, o que diz muito da cultura espacial deles na época.

Sei que é muito abstrata essa interpretação de minha parte, mas até o doc explora isso analisando o próprio ambiente do Congresso versus o processo sendo debatido ali sem precedentes e o tipo de público assistindo. É impressionante destrinchar como reflexo de mil fragmentos num quebra-cabeça de época.

O caso ganhou tamanho proporção que se tornou uma referência obrigatória sobre assédio na Justiça Americana e sobre racismo, já que a testemunha de acusação que denunciou o assédio era mulher negra e o acusado também era negro, gerando uma dualidade no sistema onde ser um homem num cargo hierarquicamente superior, mesmo diante do racismo estrutural, prevaleceu sobre o fato de a denunciante ser mulher, fazendo com que as alegações dela nem fosse levadas a sério pelo corporativismo hieráquico dos poderosos em se proteger uns aos outros. Tanto que o caso de Anita Hall é estudado por vários pensadores, inclusive nomes notáveis do pensamento negro, como um capítulo do livro especialmente dedicado a ela por parte de Stuart Hall sobre Identidade na Pós-Modernidade. E a terceira parte do filme, mesmo dando um merecido alívio na tensão trazendo a história para o presente de Anita, é interessante ver como se atualiza a inserção do marco que ela representa vista à luz das causas do feminismo negro contemporâneo.

E uma coisa que impressiona muito é a serenidade da Anita. Ela tem uma seriedade misturada com serenidade que irritou ainda mais aqueles conservadores, o fato de ela não perder a compostura mesmo sendo fuzilada pelos homens que se achavam as coisas mais importantes do universo, todos homens brancos supostamente héteros (uns grandes covardes). Definição literal de impávido colosso.

Sinopse (via divulgação pelo site making off): “Um país inteiro assistiu uma linda mulher afro-americana sentada diante de uma comissão do Senado composta por 14 homens brancos. Com uma voz clara e firme contou os repetidos atos de assédio sexual que havia sofrido enquanto trabalhava com o nomeado para a Suprema Corte dos EUA, Clarence Thomas. O testemunho detalhado de Anita Hill foi um ponto de virada para a igualdade de gênero nos EUA e desencadeou uma tempestade política sobre assédio sexual e poder no ambiente de trabalho que ressoa ainda hoje.

Pela primeira vez, Anita Hill fala sobre sua experiência nas audiências do Senado, seu impacto na própria noção conceitual sobre assédio sexual, direitos trabalhistas para mulheres e homens, justiça social e igualdade. O filme é sobre o empoderamento de meninas e mulheres, e, também, de homens, através da extraordinária história de Anita Hill.

Com um pano de fundo que envolve questões de gênero, assédio, política e raça, Anita: a Verdade Sobre o Poder conta a história de uma mulher que tornou possível, através de sua exposição e do amplo debate, colocando o tema como problema que precisa ser enfrentado e erradicado, que milhões de outras mulheres lutem por igualdade e a justiça. Dirigido pela premiada cineasta, vencedora do Oscar, Freida Mock, o filme celebra o legado de Anita Hill e oferece um raro vislumbre de sua vida pessoal e profissional.”

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