Astrágalo

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21 de março de 2016

A forma como a diretora Brigitte Sy começa “Astrágalo”, com uma fugitiva ferida rastejando pelos arredores da prisão de Doullens, na França, leva o espectador a acreditar que está diante de uma história que ressalta a persistência feminina pela busca da liberdade. A prisioneira evadida, Albertine (Leïla Bekhti), é amparada pela boa vontade de Julien (Reda Kateb), um homem misterioso, também fora da lei, que a leva a Paris com direito a moradia e um romance não convencional. Com narrativa que se passa no final da década de 1950, “Astrágalo” recorre à fotografia em preto e branco para unir o útil ao agradável ― a escolha resgata o ambiente de época e ainda oferece ao filme uma sofisticação estética comum no cinema cult.

Apesar de ser um filme rodeado pelo aspecto mundano de uma camada que está longe da alta sociedade, o requinte da fotografia bem feita encontra ramificações no roteiro. Seja na beleza das feições mediterrâneas da atriz Leïla Bekhti ou na discrição com a qual “Astrágalo” reproduz a prostituição de Albertine e seu convívio com personagens desajustados ou marginalizados. O maior interesse do filme é no modo como Albertine, ou Sophie de acordo com a nova identidade falsificada, vai conduzindo a própria sobrevivência. Apaixonada por Julien, namorado que aparece poucas vezes devido às suas atividades criminosas, ela procura o toque de outros homens, em troca de dinheiro, enquanto sofre por amor. Nesse contexto, o longa traça um paralelo entre a dor física, superada pela moça após a fratura no pé (mais precisamente no osso denominado astrágalo), e a dor emocional, incurável diante da dimensão do sentimento por Julien.

Na trajetória da protagonista, a curiosidade fica por conta da contradição ― resiliente, ela fica cada vez mais próxima da independência, mas aprisiona-se no amor por um homem; ainda que este não seja qualquer um, mas seu salvador. A força da personagem, que mesmo machucada insistiu para sair da cadeia, esmorece diante da dependência possessiva, retratada em tons chorosos de drama. Antes desse caso de amor há outro que ressurge em uma brechinha de carência ― a cumplicidade, com algo a mais, entre Albertine e Marie (Esther Garrel ― filha da cineasta e irmã de Louis Garrel, que faz uma ponta no filme). Quando mais jovens, as duas foram presas pelo mesmo crime: um assalto desastroso e violento. Da relação de afeto entre as mulheres, muito mais ousada e divertida que o sombrio envolvimento de Albertine e Julien, o espectador só tem direito a uma degustação, mas compensa. Uma informação não pode faltar ― Albertine realmente existiu. Morreu jovem, aos 29 anos, após escrever o romance “L’Astragale”.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4