Baby Yoda aplaudiria o Festival do Rio

Maratona cinéfila carioca festeja a franquia Jedi com projeção de gala de 'O Despertar da Força'

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12 de dezembro de 2019

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Rodrigo Fonseca
De carona na estreia de Star Wars: Episode IX – The Rise of Skywalker na madrugada de 19 de dezembro, o Festival do Rio 2019 embarca na senda Jedi e exibe os dois últimos episódios da franquia idealizada por George Lucas, agora sob os auspícios de J. J. Abrams (cabeça, coração e alma de Lost), em sessões de gala, que prometem levar os fãs – e os ainda não iniciados – a uma epifania estelar. O recente sucesso global de O Mandaloriano (The Mandalorian), da Disney +, só amplia a importância dessa retrospectiva singular da maratona cinéfila carioca. Coroado com uma bilheteria estimada em US$ 2 bilhões, O Despertar da Força (The Force Awakens), o tomo 7 da saga, de 2015, vai ser projetado nesta quinta-feira, às 21h30, no Cine Odeon. Na terça, dia 17, tem Os Últimos Jedi, às 21h30, também no Odeon. Ambas as exibições entram em plena sintonia com a recente indicação de Adam Driver, o vilão Kylo Ren, ao Globo de Ouro por seu desempenho comovente em História de um Casamento.

 

 

Com esse regresso, vale um balanço do que O Despertar da Força provocou em sua estreia. Foi com um atraso de pelo menos sete anos em relação às filmografias da Europa e da América Latina (Brasil inclusive) que os EUA se engajaram numa corrente de mudança audiovisual chamada de cinemanovismo, iniciada por lá quando o diretor Jefrey Jacob Abrams, nascido em 1966, era apenas um bebê de colo. Neste momento em que o planeta em peso se põe a matar sua curiosidade frente a Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (The Force Awakens) e a babar frente às imagens arquitetadas sob a direção por Abrams – ou J. J. como é ele conhecido -, uma mitologia iniciada nos tempos do cinema novo norte-americano se recicla, ganha uma mão de verniz e abre suas veias para inquietações contemporâneas de inclusão sexual, racial e étnica. Mas é importante que se saiba que essa instância mítica do pop é fruto de uma torrente de revisionismo ético, moral, comportamental e governamental iniciada em 1967 e finda em 1980, movida ao gás de uma juventude cabeluda e barbuda cujo sonho era botar nas telas não a América idealizada pelas comédias e pelas love stories da Hollywood clássica e sim uma América on the rocks, mestiça, esfarrapada, chapada de cânhamo e fedida ao agente laranja do Vietnã. Star Wars nasceu da carência de novos heróis com fibra para repaginar o conceito jurássico do bom mocismo à luz da rebeldia junkie, flower power, black power, cinéfila. E na tarefa de dar continuidade à tradição que George Lucas sedimentou nessa era rebelde, Abrams deu conta do risco prestando um tributo ao ethos histórico que originou Luke Skywalker e cia. e indo além disso.

Ontem e hoje – ou passado e presente – são uma matéria-prima só no espetáculo narrativo que eleva o realizador nova-iorquino de 49 anos ao status de mestre, arrancando de seus atores o melhor a título de carisma e boa interpretação e elevando à fervura máxima a montagem de Maryann Brandon e Mary Jo Markey.  Por isso, autoralidade é a palavra bússola para se entender O Despertar da Força. Às vésperas de preparar as primeiras exibições públicas de Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança, em 1977, George Lucas, cabeça por trás da saga milionária, convocou seu melhor amigo (e incentivador), o cineasta Brian De Palma (Os Intocáveis), para ver os copiões e lhe dar suas impressões sobre o longa-metragem que apresentaria Lorde Darth Vader à Terra. De Palma viu e, ao fim da projeção, recomendou: “Lucas, venda tudo o que você tem, pois você acaba de preparar aquele que vai ser tornar o pior de todos os fracassos da história do cinema”. Prognóstico mais equivocado poucas vezes já se ouviu. Mas ali, mais do que protecionismo de irmão mais velho postiço e mais do que desencontro de expectativas (artesão do suspense, De Palma gosta de sangue e tripas e meias verdades, não de fantasia), havia a miopia frente ao léxico do pop, que, naquele frente, começava a se configurar como uma cartilha e como uma filosofia de mundo. E o pop de Lucas era uma mistura de seriados dos anos 1930 (Flash Gordon), HQs (Buck Rogers) e de épicos samurais de seu deus Akira Kurosawa.  De Palma errou, Lucas acertou e o público ganhou um colírio com cores mais reluzentes que a do LSD, permitida para menores e atraente para maiores. Duas trilogias nasceram dali.

 

Star Wars: The Force Awakens Ph: Film Frame ©Lucasfilm 2015

Star Wars: The Force Awakens
Ph: Film Frame
©Lucasfilm 2015

 

Mas o tempo passou, a idade chegou, Lucas ficou grisalho e se cansou de guerra… sua Guerra nas Estrelas, confiando a um rato de calções vermelhos, o camundongo Mickey e sua Disney, seu latifúndio sinestésico de Jedi e Sith. Na Disneylândia, fala-se o beabá da infância, no qual a Morte ficou com a mãe de Bambi e os traumas foram abanados pelas orelhas voadoras de Dumbo, ganhando volume 3D na computação visual de uma Pixar que usa bonecos para representar rejeição e inveja. No jardim da infância de Pato Donald não havia quem pudesse (quiçá soubesse) adentrar pelo Lado Negro da Força. Mas Abrams foi com seu Star Trek de 2009 aonde nenhum homem de Hollywood jamais esteve e transformou uma soporífera série de muito blábláblá e pouco músculo numa montanha-russa de estrangular fôlegos sem desmerecer tutanos e refinamentos. Era, ainda por cima, súdito da Princesa Leia, nas lembranças que guardou de seus 11 anos, quando Uma Nova Esperança estreou em Nova York. Era, portanto, a escolha perfeita. E respondeu à altura, assumindo a assinatura autoral que fora de Lucas.

Se nos anos 1970, um caubói gourmetizado como Han Solo soava transgressor, nos anos 2010, Abrams dá à dionisíaca figura da atriz inglesa Daisy Ridley (e que atriz!) pleno protagonismo no domínio dos sabres de luz, na pele de Rey. E seu lado, o diretor escalou o britânico John Boyega, para encarnar o soldado StormTrooper desertor Finn. Se não bastasse, o terceiro vigilante estelar é o guatemalteco Oscar Isaacs, sob a farda do piloto Dameron Poe.  Frente ao regresso de Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hammil (numa aparição de arrancar lágrimas), o trio de jovens só poderia almejar uma condição coadjuvante. Mas Abrams não quis fazer Em Algum Lugar do Passado. Ele quis consolidar um novo panteão de guardiões para a galáxia. Gol! Fabricou três heróis de boa cepa, aptos a escavar um canteiro no imaginário das gerações de dentes de leite ou das de bocas banguelas.

 

 

Com um roteiro impecável, de viradas, surpresas e homenagens, bronzeado pelo Sol dos Sóis do script americano dos anos 1980, Lawrence Kasdan, Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força (The Force Awakens) se concentra num momento em que um novo exército imperialista ameaça a paz do Universo: a Primeira Ordem, cujo líder de voz gutural, o Supremo Líder Snoke (Andy Serkis, o Gollum de O Senhor dos Anéis), é mantido em sigilo. Seu acólito mais sanguinário é o espadachim Kylo Ren, um vilão de primeira grandeza, capaz de ombrear a maldade de Lorde Vader, mas prejudicado por tormentos existenciais relativos às sua origem que lhe dão tridimensionalidade dramática. As ações da Primeira Ordem abrem as sequências iniciais do longa numa caça ao dróide BB-8, um primo pós-moderno de R2-D2, de igual fofura. Ele detém um arquivo com o paradeiro de Luke Skywalker (Hammil), desaparecido há anos. E Snoke quer destruir o Jedi. Essa perseguição pelo dróide mobiliza um Stormtrooper de bom coração (Finn), uma coletora de sucata possuidora de uma concentração agigantada da Força (Rey), um ás da pilotagem de jatos X-Wings (Poe) e a dupla Han Solo e Chewbacca.

Entre correrias, duelos de esgrimas de arrancar nosso pâncreas de tamanho frenesi e atuações cheias de vigor, essa luta entre a Primeira Ordem e os rebeldes liderados pela ex-Princesa, hoje General, Leia (Fisher, num momento luminoso, dois anos antes de sua “passagem”) rende na telona um show pirotécnico e uma discussão sobre conciliações e sinas, tratada com um tônus trágico à la grega. Tudo isso só faz dar a Abrams o tamanho de gigante na sci-fi e na aventura, no rastro do que cinemanovistas como Lucas e Spielberg fizeram lá nos seventies. O momento é outro, ok. Mas a carência de heróis é a mesma. E Rey, Finn e Poe ajudam a vencer nossas demandas, ao mesmo tempo em Han Solo e Chewie matam as nossas saudades do escapismo intergaláctico.

E, entre as revisões de dois belos filmes neste Festival do Rio que já nos deu gemas como Anna, de Heitor Dhalia; O Caso Richard Jewell, de Clint Eastwood; e Luta Por Justiça, de Desrin Daniel Cretton, vale uma antena ligada no Baby Yoda de O Mandaloriano. A escalação de Werner Herzog como vilão foi um achado.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5