‘Blade Runner 2049’

Dirigido por Denis Villeneuve, longa estreia nesta quinta-feira, dia 05.

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05 de outubro de 2017

Cortar pescoços e atirar numa multidão. Características do nosso tempo. Estamos diante da humanidade em toda a glória do século XXI sofrendo e muitas vezes, aplaudindo, a barbárie. O mundo livre lutou e venceu o nazismo, mas simpatizantes persistem, mais de 70 anos depois de todo o horror. A obra de Philip K. Dick, “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?, inspirou o aclamado filme Blade Runner – O Caçador de Androides”, que décadas depois, retoma a trama de androides com prazo de validade que lutam pela sobrevivência. “Blade Runner 2049”, retoma, como nos nossos dias, temas como o extermínio, a escravidão e a intolerância, que voltam a assombrar. A humanidade como objeto de controle. Estamos falando de ficção científica ou triste realidade?

 

Ryan Gosling e Harrison Ford se equilibram como duas gerações de matadores de replicantes

No filme original o personagem Roy tem o monólogo definitivo:

“Vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque ardendo no cinturão de Órion. Observei raios gama brilharem na escuridão próxima ao Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer”.

A memória de Roy é como a própria história que passa sem pensarmos que na verdade não podemos esquecer.

“Blade Runner 2049”, acontece trinta anos depois do confronto entre o caçador Deckard, e o grupo de androides. O diretor Denis Villeneuve, com todo refinamento estético que é característico de sua obra, vai explorar o passado, mas sem deixar de colocar os dois pés na inovação. Deckard fugiu com a androide Rachael, um modelo altamente intuitivo e quase humana. Mas o que vem depois? Vamos conhecer o agente K da Polícia de Los Angeles. Ele descobre um segredo há muito enterrado que pode causar uma rebelião no que resta da sociedade. K inicia uma investigação para encontrar Rick Deckard, que está desaparecido.

Ryan Gosling and Harrison Ford star in Alcon EntertainmentÕs sci fi thriller BLADE RUNNER 2049 in association with Columbia Pictures, domestic distribution by Warner Bros. Pictures and international distribution by Sony Pictures Releasing International.

O filme remete a Los Angeles escura e caótica do filme de Ridley Scott e Villeneuve continua bebendo litros e litros na mesma fonte visual que inspirou Scott, a estética dos ilustradores Moebius e Enki Bilal, em figurinos, naves, esculturas e cenários.  Mas a história avança com revelações e viradas surpreendentes.

O veterano Hampton Fancher, que adaptou a obra literária de Philip K. Dick, para o filme de 82, e Michael Green, escreveram 2049 com elementos de trama policial envolvente e uma pegada de faroeste. Esse filme acontece em ambientes mais claros, ainda assim caóticos, apocalípticos, no entanto, as cenas diurnas, em plena poeira radioativa, lembram o velho oeste hostil e deserto. Homens e mulheres prontos para sacar a pistola. Bons de gatilho e bons de briga, como todo faroeste requer. O homem solitário envolvido em algo muito maior.

Muito maior também é a fotografia do mestre Roger Deakins, que se não ganhar um Oscar por “Blade Runner 2049”, será lamentável. Ele que já foi indicado 13 vezes, tem esse ano o seu melhor trabalho ao lado do brilhantismo de Kundun (1997). O britânico diz que é fácil fazer uma paleta de cores esteticamente agradável e que o difícil é fazer com que ela preste um serviço à história. Pois no filme de Villeneuve, Deakins passeia entre o preto, o amarelo e o laranja para mostrar caos, passado e futuro. Essas cores estão até nos letreiros finais.

Para representar K, o diretor escalou o compatriota canadense Ryan Gosling e acertou em cheio. A atuação sempre contida que emociona no momento exato está lá. Harrison Ford revive com empenho mais um dos personagens icônicos da sua tríade vencedora Solo-Indiana-Deckard. Os bons merecem voltar. Outro destaque é Sylvia Hoeks, que é holandesa tal qual Rutger Hauer, o vilão do original. Luv não tem o idealismo de Roy. Ela é letal. A cubana Ana de Armas é a doce Joi, parceira de K para todos os momentos. Jared Leto, é o magnata Wallace, tentando manter o controle de tudo como é habitual de líderes de grandes corporações. A sempre ótima Robin Wright representa a chefe de K. Finalmente, Mackenzie Davis, como Mariette, é inspirada em físico, cabelo e maquiagem, na Pris de Daryl Hannah.

“Blade Runner 2049” é uma continuação brilhante de uma obra-prima do cinema dos anos 80, com respeito ao passado e a personalidade de sua época. A trilha de Hans Zimmer remete a obra espetacular de Vangelis, mas são músicas de outros dois artistas do passado que estão no filme para lembrar a esse presente e futuro trágicos, que a humanidade deveria viver de pequenos grandes prazeres para deixar de ser um escravo controlado. Denis Villeneuve evoca Frank Sinatra com “Summer Wind” e  “One for My Baby (And One More for the Road)” e Elvis Presley, com “Suspicious Mind” e “Can’t Help Falling in Love”. É difícil realmente não se apaixonar.

Avaliação Ana Rodrigues

Nota 5