Currais

Campos de Concentração dos velhos novos tempos*

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01 de setembro de 2019

*Crítica originalmente publicada durante a 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes em 24 de janeiro de 2019, ora republicada no 29º Cine Ceará como parte da competição no Olhar do Ceará que tem sua primeira Mostra só de longas, além dos tradicionais curtas, como consequência da enorme produção de longas cearenses em 2019 que está lançando um recorde de filmes numa Primavera Cearense. Para uma entrevista com os cineastas, clique AQUI**

Preparem-se para “Currais” de Sabina Colares e David Aguiar, filme da Mostra Olhos Livres na 22° Mostra de Tiradentes — Sobre campos de concentração (😱) no Ceará (😱😱) até 1932 (😱😱😱), levando milhares de desabrigados que eles chamavam de ‘flagelados’ para trabalhos forçados e escravos em troca de comida estragada (quando sequer os alimentavam), relegados para morrer em massa e ainda ter de cavar a própria cova (😢)… E pior, estes mesmos campos de concentração podem estar voltando na contemporaneidade fascista em uma inversão cruel dos tempos.

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O filme é um misto de documentário com reencenação poética dos fatos através de artistas profissionais e maturados como Rômulo Braga (“Elon Não Acredita na Morte” e “Navios de Terra”) e Zezita Matos (“A História da Eternidade” e “Mãe e Filha”), ou mesmo a voz de Everaldo Pontes (“Batguano”, “Deserto”). Além disso, é preciso ressaltar em primeiro lugar a fotografia  de Petrus Cariry (“O Barco”, “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois”) que consegue justamente empregar o tom lírico graças aos contornos naturais do Ceará, num horizonte de montanhas e construções abandonadas em deserto escaldante, como contraste entre a história monstruosa de um genocídio e a sobrevivência de um povo contra todas as adversidades.

Mas é sobre as reencenações que precisamos nos debruçar, visto que o vigor de fato do filme está na busca de seus fatos reais, com impacto inegável dentre imagens de arquivo, fotos e recortes de jornais raros ante a quantidade de coisa que se perdeu (ou se deixou perder por vontade das autoridades). O fato é que os artistas profissionais eram necessários devido a todos os envolvidos na tragédia já estarem mortos, salvo exceção de uma única sobrevivente que até aparece no filme. Já o restante está interpretando relatos — bem como a esplendorosa atriz Zezita Matos que consegue imprimir um registro tão natural que quase nos faz embarcar que poderia ter acometido também a tragédia relatada na família dela, mesmo conhecendo a atriz e seu talento. — Ponto alto do filme.

A questão é que nem todas as interpretações dão certo. Não por falta de interpretação cênica, mas por inserções que não contribuem com a veracidade. O que de início começa com uma ficção paralela ao documental, focada apenas na investigação do personagem de Rômulo Braga, como sempre seguro no papel, é quando outras pessoas vão sendo inseridas como investigadores/entrevistadores também que o foco dramático começa a espargir um pouco. Além disso, o encontro da linguagem documental com a parte ficcional em alguns destaques muito positivos, como o relato das casas mal assombradas de tanta gente que já foi morta ali, passa a abraçar a performance artística mais escancarada, e todas estas podiam ter ficado de fora da montagem final — apesar da tentativa louvável. Algo que destoa sem necessidade e de difícil conexão, quando a história verídica já conecta as pessoas por si só.

É necessário ressaltar que o diretor de fotografia Petrus Cariry advém de uma pegada do gênero horror psicológico, e algo desta linguagem é impressa aqui. Até porque a história em si é sufocante por si só, mas em alguns momentos mais imateriais e em locações vazias o contato da luz e sombras com a trilha são úteis na imersão, mesmo que a desconcentração cênica possa diluir um pouco esta força. Mas entende-se também não sufocar a narrativa apenas nos seus aspectos negativos inerentes à denúncia, e sim para também imprimir dignidade aos personagens que não podem deixar de honrar o Ceará pelo próprio fato de terem sobrevivido. Suas existências são dignas e não se encerram ou se reduzem à tragédia de suas histórias.

No fim, ainda assim, a magnitude de um relato destes, perante o registro de uma lembrança denunciativa que muito brasileiro desconhece, continua sendo imprescindível. Ainda mais em tempos que perigam regressar a iniciativas genocidas de higienização forçada dos problemas da sociedade como esta. Muito triste mesmo.

**[Entrevista] Sabina Colares e David Aguiar: diretores do longa-metragem CURRAIS exibido originalmente na Mostra Olhos Livres da 22° Mostra Tiradentes: