Difret

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02 de outubro de 2014

Baseado em fatos reais, “Difret” acompanha o caso de Hirut (Tizita Hagere), menina de 14 anos que é raptada por homens ao sair da escola e logo em seguida estuprada e espancada.

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A questão é que o seqüestrador queria se tornar marido da jovem e o ocorrido faz parte de uma tradição oriunda de aldeias da Etiópia. Hirut, em legítima defesa, acaba roubando uma arma e matando seu “pretendente” e, a partir disso, a maioria da população da cidade de Adis Abeba quer a condenação e até a morte dela. Tendo como membro dos produtores Angelina Jolie, o filme prima pela escolha do tema e pelo competente tom naturalista da interpretação dos atores, o que faz do longa um retrato honesto de uma sociedade cujas polêmicas são muitas, porém pouco exploradas no cinema. Por vezes aterrorizante devido às discrepâncias culturais do país, “Difret” consegue cumprir seu papel de denunciador sem recorrer a cenas de violência apelativas e trata com delicadeza os desdobramentos da premissa. Tendo como principal condutor da narrativa o esforço da advogada Meaza (Meron Getnet), dona de uma organização gratuita que preza pelo bem estar de mulheres e crianças pobres e uma das poucas a defender a não condenação da menina, o filme serve como observatório de uma cultura tradicional preste a ser modificada. O foco, nitidamente, está no espaço que aos poucos vem sendo conquistado pelas mulheres em nações como a Etiópia, que, paralelo ao estilo thriller que é adotado pelo diretor Zeresenai Berhane Mehari, bate na tela como um grito desesperado pela liberdade. O longa, vencedor dos prêmios do público nos festivais de Berlim e Sundance, preza pelo tom intimista e ao mesmo tempo globalizado, utilizando-se majoritariamente das nuances das personagens femininas para criticar o conformismo e qualquer tipo de intervenção machista na sociedade. O roteiro quase derrapa ao não aproveitar todas as oportunidades de subtramas, como a mulher que apanha do marido e a vida amorosa de Meaza e, às vezes, opta por um tom mais informativo que artístico, mas acerta ao expor um estudo antropológico sobre intolerância, organização de núcleos familiares, divergências territoriais e a chance de uma minoria ter sua voz ouvida e respeitada. Vale lembrar que o filme chegou a ser proibido numa exibição na Etiópia, depois de uma confusão envolvendo direitos autorais e preservação moral das pessoas que inspiraram o longa.

 

Festival do Rio 2014 – Expectativa

 

Difret (Difret)

Etiópia, 2013. 99 minutos

Direção: Zeresenai Berhane Mehari

Com Meron Getnet, Tizita Hagere, Rahel Teshome