Em Pedaços

Thriller angustiante e amargo

por

18 de outubro de 2017

Em Pedaços apresenta uma Alemanha multicultural, da qual o próprio diretor Fatih Akin (de descendência turca) é filho, mas também fraturada por tensões raciais e extremismo político. A protagonista, Katja Sekerci (Diane Kruger, vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel), é casada e tem um filho com o imigrante turco Nuri (Numan Acar), vivendo aparentemente feliz até que os dois são vitimados por um brutal atentado terrorista – que, conforme descoberto dali a um tempo, foi cometido por jovens de extrema-direita, portadores de um violento discurso nacionalista, racista e anti-imigração.

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Estabelecido esse cenário, interessa primordialmente a Akin acompanhar a trajetória de sua protagonista, do céu ao inferno, conduzindo-a, no terceiro ato, a uma busca por redenção. Em Pedaços possui então uma estrutura narrativa bem definida, com três capítulos (“A Família”, “A Justiça” e “O Mar”) separados por vídeos caseiros da família Sekerci, inseridos com o objetivo de reforçar a felicidade perdida. O primeiro e o terceiro atos são os melhores: Akin é muito eficiente na construção tanto do luto de Katja, da dor inexpugnável experimentada pela personagem, culminando na forte e tristemente bela cena da banheira, quanto de sua jornada de vingança em terras gregas, momento no qual o filme se assume como um thriller angustiante e amargo sobre a descoberta de que certas feridas são incuráveis.

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Já o segundo ato, quase todo dedicado ao julgamento dos responsáveis pelo assassinato de Nuri e de seu filho, concentra as piores escolhas do diretor: da vilanização do advogado dos terroristas (vivido por Johannes Krisch como um sujeito cínico e abjeto em sua insensibilidade no trato com a dor da protagonista) à decisão absolutamente inverossímil do tribunal, que, na prática, só ocorre para tornar possível o capítulo seguinte de Em Pedaços. É verdade que reclamar dessa adequação descuidada da lógica dos fatos às necessidades narrativas pode revelar certa ingenuidade na relação com a ficção, já que, no fim das contas, contar uma história pressupõe a manipulação de informações em prol de torná-la mais interessante, indo além da mera reprodução da realidade. No entanto, Akin não parece verdadeiramente interessado nessa piscadela metalinguística: sendo seu filme calcado, em boa medida, no realismo, tal escolha soa simplesmente preguiçosa, pouco sofisticada.

Ainda assim, a força do terceiro ato acaba fazendo valer a pena o caminho seguido até ali. É de se lamentar apenas que Akin não tenha encontrado uma forma menos óbvia de levar seus personagens para esse ponto. Em Pedaços sobrevive, assim, como um filme tenso e comovente, mesmo que estruturalmente capenga, já que dependente de um Deus Ex-Machina jurídico nada sutil.

Avaliação Wallace Andrioli

Nota 4