Entre Irmãs

Novo longa de Breno Silveira faz sua estreia no Festival do Rio 2017

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06 de outubro de 2017

Não se deixe enganar pela primeira impressão: este não é apenas mais um filme sobre o cangaço. O grupo de foras-da-lei que lutam contra a opressão dos coronéis no sertão nordestino liderado por Carcará (Júlio Machado) é parte essencial do enredo, porém seu foco é voltado para as mulheres – as irmãs Emília (Marjorie Estiano) e Luzia (Nanda Costa). Baseado no livro “A costureira e o cangaceiro”, de Frances de Pontes Peebles, “Entre Irmãs” acompanha a vida de duas irmãs que aprenderam o ofício da costura com a tia desde pequenas e foram separadas pelo destino, seguindo caminhos completamente opostos e inesperados. Sempre enfrentando o preconceito e o machismo da época, as duas fazem de tudo para tentar proteger uma à outra, mesmo que à distância.

Enquanto Luzia, cuja deficiência num braço achou que a impediria de encontrar o amor, é levada pelo bando de cangaceiros e passa a viver com eles no sertão, ela se envolve com Carcará e se torna sua mulher – em uma clara alusão ao famoso casal Lampião, o Rei do Cangaço, e Maria Bonita, cuja filha Expedita mais do que inspirou o nome do filho de Luzia e Carcará, Expedito. Já a romântica Emília, que sempre sonhou em conhecer um príncipe encantado que a levasse para viver na capital, Recife, consegue realizar em parte o que desejava, já que seu marido Degas (Rômulo Estrella) esconde um segredo que ela jamais poderia imaginar. É da amizade com Lindalva (Letícia Colin) que Emília tira forças para aguentar e superar toda a situação, e, mais ainda, se tornar uma mulher confiante na opressora sociedade dos anos 30, em plena Era Vargas.

A quinta parceria do diretor Breno Silveira com a roteirista Patrícia Andrade (“2 Filhos de Francisco”, “Era Uma Vez…”, “À Beira do Caminho“ e “Gonzaga – De Pai pra Filho”,) não poderia vir em melhor momento. Além de escancarar o sensacionalismo dos jornais da época, que publicavam fotos de violência explícita, a trama de “Entre Irmãs” também suscita discussões sobre temas atualíssimos, como o julgamento cego e precipitado pelas aparências, a disseminação do ódio gratuito por quem é diferente, a importância da influência e apoio de outras mulheres na vida de uma mulher (vulgo sororidade), a dita cura gay e a hipocrisia que a sociedade insiste em manter firme e forte ainda hoje – o famoso viver de aparências para não ferir a honra da família tradicional brasileira (qualquer semelhança com 2017 não é mera coincidência). São muitas questões pesadas em contraste com encontrar o amor onde e quando menos se espera, e o laço indelével de duas irmãs que seguiram direções tão divergentes, mas que se impuseram como mulheres num mundo machista de maneira tão semelhante.

“Entre Irmãs” é daqueles filmes que não se espera tanto e que surpreendem muito positivamente, deixando mensagens importantes para fazer o público refletir ao final da sessão, que dá um belo tapa na cara de muita gente preconceituosa. Mal se sentem seus longos e agradáveis 160 minutos, que provavelmente virarão uma minissérie em 4 episódios na TV Globo. Um grande acerto do cinema nacional com estreia na hora certa.

Festival do Rio 2017 – Première Brasil: Hors Concours longa ficção

Entre Irmãs

Brasil – 2017. 160 minutos.

Direção: Breno Silveira

Com: Nanda Costa, Marjorie Estiano, Júlio Machado, Rômulo Estrella e Letícia Colin.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 5