Entrevista: Grímur Hákonarson diretor do premiado “A Ovelha Negra”

Vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes 2015

por

02 de fevereiro de 2016

Na sessão de estreia do premiado longa islandês “A Ovelha Negra” prestigiando a 39ª Mostra de SP, seu diretor, Grímur Hákonarson compareceu para um debate descontraído com o público. O Filme foi o grande vencedor da Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes 2015, além de ser o escolhido da Islândia para representá-la no Oscar 2016 na categoria filme em língua estrangeira.

filmes_10577_rams8

Antes mesmo da sessão, Grímur se apresentou e disse o quanto estar aqui no Brasil com seu filme significava muito para ele, e que estaria achando sua estadia incrível, e explica a emoção conjugada a estar ali com sua obra premiada: “É um filme simples que retrata um país de ovelhas mais numerosas do que seres humanos. É um país muito pequeno, com 320 mil pessoas e 800 mil ovelhas. Longa história com elas, desde que as pessoas chegaram na Islândia. Fazendeiros com relações especiais com estes animais. E este roteiro se baseia na experiência com os fazendeiros de ovelhas de quando eu passava tempo na fazenda do avô e observava todas estas histórias.” E, após uma sessão lotada e muito bem recebida, o diretor abriu espaço até para algumas perguntas exclusivas do Almanaque.

Almanaque: Como foi filmar a nevasca no breu total da terça parte final do filme?

Grímur: Foi uma das cenas mais difíceis de minha carreira, já que possuo background em documentários. Foi complicado por necessitar de uma equipe muito grande. E as ovelhas podem ser imprevisíveis (risos). A última cena foi filmada com temperatura negativa (- 17 graus).
Os atores sofreram bastante.

Almanaque: Na frente de tantos filmes islandeses na 39ª Mostra de SP, inclusive com premiados recentemente, como foi realizar tal produção em seu país? Há incentivos ou patrocínio do governo? E existiriam temáticas em comum na filmografia islandesa?

Grímur: A Islândia é um país bastante pequeno, que realiza de 4 a 6 longas por ano apenas. Depende muito de financiamento público da Europa, Dinamarca, Noruega. Somos bons em contar histórias, possuímos uma literatura rica. Como não há muita grana, recorremos a histórias simples, como este filme, passado quase todo em uma locação apenas. Não dá pra fazer produções caras, como ficção científica ou filmes de época. Já as ovelhas são um tema muito comum para nós, não apenas do campo como urbano também. Há clichês sim sobre a relação do homem com as ovelhas. Se vivem muito sós com ovelhas, há quem pense que talvez algumas pessoas tenham relações com elas. Mas se tiver vontade, pode ir procurar num centro urbano também. Então não levo muito a sério estas cogitações e lendas urbanas. Mas há decerto uma relação genuína com as ovelhas. Quando não se possui família, ficam mais próximos das ovelhas. Por isso fiz a história sobre dois fazendeiros que são irmãos que não se falam, para justificar a afeição com os animais. Por coincidência, eles não são casados. É equilibrado o número de mulheres e homens na Islândia. Porém é mais comum homens permanecerem mais nas fazendas, enquanto que a tendência das mulheres é irem embora por ser um trabalho mais tradicional dos homens cuidarem das ovelhas. Nas áreas em que sou mais familiar, há muitos homens solteiros.

E sobre a mudança do título original, apenas “Hrútar/Rams” que quer dizer ‘carneiros’ para “A Ovelha Negra”?

Grímur: Em língua original e inglês funcionou o título como “Carneiros”. Aqui foi necessário adaptar para algo que funcionasse melhor e tivesse uma pegada mais comercial. E o carneiro do personagem Kiddi é negro. Mas por favor não confundam com um famoso filme de terror Neozelandês que também se chama “Black Sheep” em inglês (risos).

E a cena final, o que significa para o próprio Grímur?

Grímur: O final é propositalmente em aberto. Há um significado maior do que se eles morrem ou vivem, ou seja, que é o de eles ficarem juntos pela primeira vez após tantos anos. Mas tenho certeza de que as ovelhas continuam lá (risos). As pessoas têm ideias muito diferentes sobre o final. Se contasse o que eu acho que acontece com os personagens, estragaria a imaginação de cada um. Não quero explicar tudo. Gosto que as pessoas pensem sobre o filme.