Estrangeiro

Belíssima fotografia remonta a clássico brasileiro "Limite"

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24 de maio de 2019

Crítica originalmente publicada em 11 de dezembro de 2018 durante o 13º Fest Aruanda, ora republicada pelo V Cine Jardim – Festival de Cinema em Belo Jardim, Pernambuco:

“Estrangeiro” de Edson Lemos Akatoy é uma das produções pertencentes ao marco da Primavera Paraibana anunciada no 13º Fest Aruanda do Cinema Brasileiro, que em 2018 alcançou um recorde de 13 longas-metragens em fase de lançamento ou sendo finalizados (seis longas prontos e exibidos no Festival na Mostra Sob O Céu do Nordeste e sete em produção). O filme conta com um elenco predominantemente feminino com Cecilia Retamoza, Bruna Belmont, Solana Bandeira, Ana Maria Nunes, evocando a força e alma das mulheres paraibanas.

A história começa com o retorno para a casa da protagonista, de modo a misturar os tempos, a realidade e o sonhos, passado e presente, ou mesmo a percepção de diferentes personagens, de acordo com que as pessoas da vida da protagonista vão sendo introduzidas e lembradas por ela. Para além da estrutura narrativa, também é interessante notar que este ar onírico remonta a um dos clássicos do cinema brasileiro, “Limite” de Mario Peixoto (1931), cuja história era contada através de flashbacks e fragmentos da percepção de diferentes personagens (algo que o cinema brasileiro já estava inovando no início da década de 30 antes mesmo do famoso “Cidadão Kane” de Orson Welles).

Sem falar em outra consonância com “Limite” que é a belíssima fotografia em P&B do mestre Edgard Brasil no original, e aqui em “Estrangeiro” um inspirado trabalho coletivo de Raphael Aragão, Julia Sartori & Charliane Rodrigues — numa abstração da realidade através de movimentos da natureza como o mar, o vento, as árvores ou a areia, de modo a exprimir sensorialmente os estados de espírito dos personagens através de sua conexão com o ambiente ao redor. Belíssimo diálogo com o cinema clássico e com a vanguarda, como com filmes recentes também premiados como “Chuva é cantoria na aldeia dos mortos” e “Los Silencios”, todos falando da reconexão com a terra e com a pátria.

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