Fabiana

Filmar o Real com a montagem invisível

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26 de maio de 2019

O quanto podemos horizontalizar uma câmera observacional? O quanto o naturalismo pode representar a subjetividade de um personagem, já que a rotina camufla o dirigismo e onipresença intimidante de uma câmera ao mesmo tempo em que naturaliza as forças opressivas e permite às personagens reagir com a própria autofabulação de suas performatividades? Todas estas são questões que o filme em longa-metragem “Fabiana” de Brunna Laboissière apresenta não apenas para o espectador como para o próprio gênero documental nos cinemas em geral. Como respeitar o lugar de fala de uma personagem e ainda assim fazer um filme que inevitavelmente invada seu espaço e se aproprie de suas intimidades a partir de um olhar alheio? Todo filme parte de algum lugar e é atravessado pela bagagem de quem filma, isto é inevitável… Mas não sobra espaço para a empatia? Para a colaboração? E para a troca?

fabiana

Em seu eficiente debut, Brunna registra um desafio e tanto: acompanhar talvez uma das profissões mais duras e difíceis no mundo, a de caminhoneiros que precisam atravessar com máquinas pesadas as estradas e estados de um país por dias inteiros sem dormir. Mas há um diferencial, pois não é a história de “um caminhoneiro” como de praxe na profissão marcada pelo patriarcado, e sim de uma pessoa cheia de riquezas e atravessamentos bem mais complexos para tirar o ponto de vista central de um lugar comum. O nome do filme é também o da personagem principal, “Fabiana”, uma mulher trans e lésbica, o que representaria dois recortes afirmativos que já seriam tratados como minorias de direito na sociedade por si só, independente um do outro, mas que aqui se concentram em conjunto num dos meios de trabalho talvez dos mais misóginos e homofóbicos ainda a reforçar estereótipos no Brasil. Ainda mais especialmente acuados por manobras da economia nacional que recaem muitas vezes em cima deles em primeiro lugar, devido à inflação do combustível e dos bens essenciais que eles transportam.

Fabiana é uma profissional segura e maturada. Não “começou” ontem. Muito pelo contrário, pois o filme coincide com um momento em que ela está quase se aposentando (evidentemente as filmagens foram feitas antes das novas polêmicas da nova reforma da previdência que adiará eternamente a aposentadoria de todos os brasileiros). Aliás, foi justamente pela aposentadoria e por querer se autodeclarar para o mundo e para as pessoas de sua vida que a personagem parece querer se abrir com bastante cumplicidade para a tela em vários quesitos de sua vida, como relações anteriores e atuais, o filho biológico, amigos de estrada e até mesmo suas vulnerabilidades e intimidades. Ela vê como essencial o intercâmbio de suas memórias com uma interlocutora confiável e que fosse aberta às suas sugestões – mesmo que algumas destas sejam sutis ou implícitas.

A partir do momento em que parece ser traçado um acordo tácito entre os tempos da câmera e de Fabiana, esta passa a controlar cada respiro de cena e os momentos catárticos com que irá trocar cada nova etapa em desvelar sua trajetória, com bastante orgulho de seus atos. Em determinado momento, Fabiana chega até a dizer que faria tudo de novo. Não há necessidade de arrependimentos ou qualquer hesitação por seus atos. Uma pessoa plena e com o potencial de ser feliz dentro de si, como todos nós. Algo com que todos podem se identificar, independente se a protagonista fosse uma mulher cis, trans, travesti ou de gênero fluido.

A narrativa transcorre de forma não linear, de modo a fugir da necessidade de capítulos para perpassar de forma fluida por todas as particularidades de sua vida. Tom fluido este que, por sinal, combina a montagem com a quebra da necessidade dicotômica de cortes hierárquicos no filme, pois a montadora Bruna Almeida, xará da diretora Brunna Laboissière, consegue alcançar um equilíbrio de forças entre as várias revelações de Fabiana, mesmo que elas venham aos poucos, mas nenhuma possui um peso maior do que outro. – Transcendendo a dicotomia teórica da montagem invisível, nas palavras de Ismail Xavier, e alcançando uma montagem que respira junto com a personagem e permite que ela existe para além dos tempos óbvios do ritmo cinematográfico. Nenhuma revelação é tratada de forma sensacionalista ou sem o devido respeito. A câmera horizontalizada da fotografia segue sempre ao lado do banco da motorista, no assento de copilota, como se a diretora houvesse feito um pacto com a personagem, e ambas segurassem seus respectivos volantes. A câmera dentro do caminhão jamais se coloca nem na frente nem atrás da personagem retratada. Jamais a objetifica ou exotifica. Uma lição de como se “filmar o real” (LINS, Consuelo da Luz. Filmar o Real: Sobre o Documentário Brasileiro Contemporâneo. SP: Zahar, 2008), seja o que for real ou não no espectro entre a vida e o cinema, mas que se torna real quando toca a plateia e sai da sala de cinema reverberando vidas.