‘Feito na América’

Protagonizado por Tom Cruise, longa entrou em cartaz na última quinta-feira, dia 14.

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18 de setembro de 2017

Logo nos primeiros minutos de “Feito na América” (American Made, 2017), constatamos o tipo de caráter do piloto de voos regulares da TWA, personagem central da trama. Barry Seal não está nem aí para o bem estar das pessoas. Não é muito difícil entender a partir daí porque aceitou ser ao mesmo tempo piloto da CIA e transportador de drogas para o cartel de Medellin.

Longa é inspirado numa história real (Foto: Divulgação).

Longa é inspirado numa história real (Foto: Divulgação).

A trama acontece entre o final dos anos 70 e início dos anos 80 quando as Américas viviam momentos decisivos: o temor dos Estados Unidos com a ascensão do comunismo na Nicarágua e a expansão dos cartéis do tráfico de drogas da Colômbia para o mundo. Paralelo a isso, um escândalo que seria descoberto anos mais tarde: a milícia contra o regime da Nicarágua recebeu armas da CIA para combater o comunismo e essas armas foram parar nas mãos de quem? Cartel de Medellin. Os famosos fuzis de fabricação russa AK47 que são encontrados até hoje nas mãos de traficantes das grandes cidades brasileiras. Os fuzis ofertados pela CIA para combater o comunismo na América Central tinham conexão com o escândalo conhecido como Irã-Contras, uma venda de armas ilegal para o Irã e lucros utilizados para financiar a guerrilha anticomunista da Nicarágua. A operação resultou numa investigação do Congresso Americano e revelou a ação do coronel Oliver North, assessor do Conselho de Segurança Nacional, apelidado de “chefe dos piratas”.

A história é tão absurda que parece piada. Mas não é. O título do filme de Doug Liman é uma ironia e uma constatação: foi feito na América. O jeitinho americano de resolver as questões pelo mundo. Uma ironia à própria estrutura de poder onde veremos instituições do Estado em conflito como a CIA, o FBI e o DEA (o departamento de combate ao narcotráfico). Barry Seal é o homem certo para o “trabalho”. Ele ganha estrutura do Estado para levar as armas, mas depois de um encontro inevitável com Pablo Escobar e sua turma, volta para os Estados Unidos com toneladas de cocaína, em plena campanha antidrogas do presidente Reagan e da primeira-dama Nancy. A coincidência também é uma galhofa. A campanha tinha até uma frase famosa de Nancy, “Just Say No” (Apenas Diga Não). Pois é, Barry disse sim para a CIA e para o Cartel.

Pode parecer que Liman exagerou no tom cômico, mas, de fato, a história é um crime absurdo mesmo, orquestrado nos porões do governo. Barry ganha tantas malas de dinheiro que não tem nem mais onde esconder e lavar. Tom Cruise faz um dos seus melhores filmes recentes, o outro também dirigido por Doug, “No Limite do Amanhã”, é um êxito. O sorriso permanente de Cruise ganha contornos diferentes em “Feito na América”, é aquele sorriso de quem não está na linha certa, mas tá disfarçando. E Cruise pode agradecer Liman por dar a ele o melhor momento em anos de sua carreira. O Barry construído pelos dois é o retrato do típico pai de família que conquista uma casa luxuosa, carros, joias para a esposa, mas que a qualquer momento a Polícia vai bater na porta. No fundo, o malandro que finge bem até o dinheiro começar a transbordar. E a Polícia, é claro, segue o dinheiro.

“Feito na América” não poupa ninguém e é um dos melhores retratos da intervenção americana nos acontecimentos mundiais nas últimas décadas.

Avaliação Ana Rodrigues

Nota 5