Festival de Veneza: Almodóvar recebe prêmio de carreira

Presidente do Júri em Veneza 2019, Cineasta argentina Lucrécia Martel faz lindo discurso em homenagem a Almodóvar. Confira!

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30 de agosto de 2019

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Lindo discurso da cineasta Lucrécia Martel (presidente do Júri no Festival de Veneza 2019) ao entregar o Leão de Ouro ao Pedro Almodóvar por sua linda trajetória. Viva Lucrécia, viva Almodóvar, viva o Cinema. ❤️

Fonte: Via Vânia Catani (produtora / Bananeira Filmes)

Segue abaixo versão traduzida e mais abaixo a original em espanhol (tradução por Filippo Pitanga):

“Eu uso essas palavras que são as mesmas da missa católica. O cinema é sua religião, ele já disse isso muitas vezes. O cinema corrigia o que a escola humilhava nele e em muitas meninas e meninos. Sua paróquia era o cinema do bairro. Nesse altar de luzes, de canções cativantes, dançavam as divas de todos os tempos que o protegiam da futilidade moral, como os santos deveriam fazer. Em um relatório, você disse que certamente era uma criança muito forte para suportar a aparência de mal-entendido. O mais forte dos filhos. Almodovar foi a causa e conseqüência de La Movida, a contracultura que espanou a Espanha da longa letargia de Franco. Eles lutaram com as melhores armas: filmes, revistas, livros, música, festas. Digo isso com nostalgia dos anos 80, quando o desejo era muito menos organizado. Saúde não era um bem necessário. E a cidade foi a aventura a ser lançada.

Era mais importante aventurar-se em determinadas ruas do que ter um home theater 5.1 para assistir a três temporadas de 11 capítulos. Uma década com muito menos medo do que agora.  Em 45 anos, dirigiu e escreveu mais de trinta filmes e curtas. Suas invenções fazem parte da memória da humanidade. De uma sacola de armazém no México a uma casamata em Tóquio. Todos sabemos que ele fez filmes sem frequentar uma escola de cinema e comemoramos essa falta. Afinou os ouvidos nas fofocas dos cabeleireiros, com as lavadeiras do rio, nos becos dos viciados em insônia, nas fofocas dos vizinhos. Por várias gerações de diretores latino-americanos, seu cinema foi uma reconciliação com o castelhano. Seus diálogos iluminaram a linguagem de nossas próprias famílias. Ele apontou o caminho requintado que cantores populares como Chavela, La Lupe, Mina, abrem na trilha sonora. Ele colecionava em sua infância cromos ou figuras de divas de cinema, impressas em cores estridentes que, segundo ele, inspiravam sua extravagante paleta de cores. Mas é impossível ver o trabalho de Almodovar sem se reconciliar com os cantos de nossas casas onde a moda é naufragada.  Os fundos que povoam as fotos de nossa família. Nossas quinze festas e seus penteados. Almodovar inundou nossa memória com invenções que não precisam de grandes orçamentos, mas de honestidade provincial.

Aquelas vidas de papéis de parede enlouquecidos, enfermeiras amorosas, tapetes com estampa de animais, penteados com spray, mulheres assimétricas, aros de cafeteira nos deixaram mais livres. Eles nos libertaram do bom gosto, da boa educação, da moral mesquinha daqueles que se dizem normais. Eles nos libertaram da clareza dos laços familiares. Eles nos reconciliaram com estupidez, com palavras incompreensíveis, com mal-entendidos. Muito antes de as mulheres, os homossexuais, os trans, nos cansarmos do lugar miserável que tínhamos na história, Pedro já nos tornara heroínas. Eu já havia reivindicado o direito de nos inventar. Eu já havia colocado as próteses mamárias, os vibradores, ao lado de uma concha ou panela a vapor, no mesmo nível de qualquer coisa útil. Agora ele está cuidando dos homens. Fundamental Obrigado Pedro! Não deve haver na ética de Almodovar, existe uma obrigação a ser criada. Obrigação de inventar. Ele quebrou os costumes que escondem os gêneros do cinema, os misturou, elevou o melodrama sobre o suspense. Ele abraçou o ridículo de fazer uma arma sem precedentes contra os abusos. Se aceitarmos que o cinema expande o mundo que conhecemos, o mundo cresceu muito desde que Pedro lançou seu short em meados da década de 1970. Seus filmes inauguraram territórios onde você pode viver melhor. Pedro, agora que a ultra-direita surge no mundo como se nada tivesse acontecido, agora mais do que nunca precisamos. Porque continuamos molhando nossos biquínis em um mar de mortos. Sr. Pedro Almodovar.”

“Estamos hoy reunidos para celebrar a Pedro Almodovar.  Uso estas palabras que son las mismas de la misa católica.
El cine es su religión, lo ha dicho muchas veces.
El cine corregía lo que la escuela humillaba en él y en muchos niñas y niños.
Su parroquia fue la sala de cine de barrio.
En ese altar de luces, de canciones pegadizas, danzaron las divas de todos los tiempos que lo protegieron de la inutilidad moral, como debieran hacer los santos.
En un reportaje dijiste que seguramente fuiste un niño muy fuerte para soportar la mirada de incomprensión.
El más fuerte de los niños.
Almodovar fue causa y consecuencia de La Movida, la contracultura que desempolvó a España del largo letargo del franquismo.
Combatieron con las mejores armas: películas, revistas, libros, música, fiestas.
Digo esto con nostalgia de aquellos años 80 en que el deseo estaba mucho menos organizado.
La salud no era un bien necesario. Y la ciudad era la aventura a la que había que lanzarse.
Era más importante aventurarse en ciertas calles que tener un home theater 5.1 para ver tres seasons de 11 capítulos.
Una década con muchísimo menos miedo que ahora.
En 45 años ha dirigido y escrito más de treinta películas y cortos.
Sus invenciones forman parte de la memoria de la humanidad.
Desde una bolsa de almacén en México a un pastillero en Tokio.
Todos sabemos que hizo cine sin ir a una escuela de cine, y festejamos esa carencia.
Afinó sus oídos en los chismes de peluquerías, con las lavanderas en el rio, en callejones de adictos insomnes, en el cotilleo de los vecinos.
Para varias generaciones de directores latinoamericanos su cine fue una reconciliación con el castellano. Tus diálogos nos iluminaron el lenguaje de nuestras propias familias.
Nos señaló el exquisito camino que las cantantes populares como Chavela, la Lupe, Mina, abren en la banda sonora.
Coleccionó en su infancia cromos o figuritas de divas del cine, impresos en colores chirriantes que , dice, inspiraron su extravagante paleta de colores.
Pero es imposible ver la obra de Almodovar sin reconciliarse con los rincones de nuestras casas donde naufraga la moda.
Los fondos que pueblan nuestras fotos familiares.
Nuestras fiestas de quince, y sus peinados.
Almodovar inundó nuestra memoria con invenciones que no necesitan de gran presupuesto, sino de honestidad provinciana.
Esos livings de empapelados desquiciados, los enfermeros amantes, esas alfombras de animal print, los peinados con spray, las mujeres asimétricas, los aros de cafetera nos hicieron más libres.
Nos liberaron del buen gusto, de la buena educación, de la moral mezquina de los que se llaman a sí mismos normales.
Nos liberaron de la claridad de los lazos familiares.
Nos reconciliaron con la estupidez, con los refranes incomprensibles, con los malentendidos.
Mucho antes de que las mujeres, los homosexuales, las trans, nos hartáramos en masa del miserable lugar que teníamos en la historia, Pedro ya nos había hecho heroínas.
Ya había reivindicado el derecho a inventarnos a nosotras mismas.
Ya había puesto las prótesis de mamas, los dildos, al lado de un cucharón, o una olla de vapor, al mismo nivel que cualquier cosa útil.
Ahora se está ocupando de los hombres. Fundamental. Gracias Pedro!
No hay deber ser en la ética de Almodovar, hay obligación de crearse. Obligación de inventarse.
Desbarató la moralina que esconden los géneros del cine, los mezcló, elevó el melodrama por encima del thriller.
Abrazó el ridículo para hacer un arma sin precedentes contra el maltrato.
Si aceptamos que el cine expande el mundo que conocemos, el mundo ha crecido mucho desde que Pedro lanzó sus cortos a mediados de los años 70.
Sus películas inauguraron territorios donde se puede vivir mejor.
Pedro, ahora que la ultra derecha se levanta en el mundo como si nada hubiera pasado, ahora más que nunca lo necesitamos. Porque seguimos mojando nuestras bikinis en un mar de muertos.
Señores Pedro Almodovar.”