Filmes desta terça-feira

Richard Linklater mistura mel e fel no fecho da trilogia iniciada em 'Antes do amanhecer', apoiado no talento de Julie Delpy e Ethan Hawke

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18 de novembro de 2014

CHERNOBYL DIARIES

Chernobyl – Sinta a radiação

“Chernobyl diaries”. De Bradley Parker (EUA, 2012)

Com uma bilheteria internacional estimada em US$ 37 milhões, o thriller de terror “Chernobyl — Sinta a radiação” empresta bem-vindo fôlego ao filão dos thrillers de horror pela eficácia com que administra o suspense e pela reverência com o qual recupera a cartilha dos clássicos B sobre histeria atômica. Vai de “Vampiros de almas” (1956), de Don Siegel, até “A ilha dos homens-peixe” (1979), de Sergio Martino, a lista de referências cinéfilas evocadas pelo longa-metragem, cuja identidade autoral tem mais conexão com seu produtor, Oren Peli, que com seu realizador, Bradley Parker, técnico de efeitos especiais de longas como “Clube da luta” (1999). Diretor do fenômeno de público “Atividade paranormal” (2007), Peli criou o enredo do filme e escreveu uma das versões do roteiro, abrindo mão da muleta documental copiada de “A bruxa de Blair” (1999). Aqui, o recurso já desgastado de imprimir realismo à estética do terror usando elementos da linguagem dos documentários é aposentado. Ele dá lugar às convenções ficcionais do gênero, com um grupo de jovens com hormônios à flor da pele obrigado a correr, sem parar, de uma força malévola. Na trama, seis amigos liderados por Paul (Jonathan Sadowski) e Amanda (Devin Kelley, o único talento do sexteto) viajam até a região ucraniana onde, em 26 de abril de 1986, um dos reatores da usina de energia atômica de Chernobyl explodiu, provocando 80 mil mortes. O filme explora ao pé da letra a fama de “cidade fantasma” do local.

Cinemax, 19h

Before midnight 25252

Antes da meia-noite

“Before midnight”. De Richard Linklater (EUA/ Grécia, 2013)

Frente ao sucesso de “Boyhood: Da infância à juventude”, o texano Richard Stuart Linklater tornou-se o diretor do momento, sendo celebrado por seu engenho na condução de uma narrativa que se estende ao longo de 12 anos. Porém sua engenharia narrativa vem despertando a atenção do cinema desde que iniciou uma trilogia romântica com Ethan Green Hawke e Julie Delpy que encontra em “Antes da meia-noite” (2013) seu ápice narrativa. Lançada no Festival de Sundance de 2013, a produção faturou US$ 11,2 milhões nas bilheterias e ainda recebeu uma indicação ao Oscar de melhor roteiro original, escrito por Linklater em parceria com Hawke e Delpy.

História de amor sem idealizações, sujeita a rusgas, rugas e celulites, o filme é o terceiro capítulo (e que venham outros!) de uma trinca de longas-metragens iniciada em 1995. No princípio, era o verbo: “Antes do amanhecer” (Prêmio de melhor direção no Festival de Berlim) era uma falação só. Ali conhecemos dois jovens: o americano Jesse Wallace (Hawke) e a francesinha Celine (Julie). Estavam na Áustria, no trem de Budapeste para Viena. Nos vagões, eles ensaiaram uma paixão, que sintetizou todo o ideal romântico da geração jovem adulta dos anos 1990. Separados pelo acaso, pela geografia e pela necessidade de eternizar um encontro mágico reduzindo-o a uma noite, os dois voltam a se ver nove anos depois. Aí aparece “Antes do pôr do sol” (2004), igualmente palavroso, porém sensual, flagrando amantes que antes tinham 20 e poucos anos agora com 30 e muitos. Chegamos à parte três, numa Grécia paradisíaca, onde os dois, enfim unidos, têm crianças para criar e uma casa em Paris. A câmera de Christos Voudouris (diretor de fotografia) se deixa empapuçar pelo cenário grego. Linklater não quer mais a câmera centrada na boca de seus protagonistas. Quer a grandiosidade do espaço que os cerca, para entender os laços que os oprimem. No primeiro filme, eles falavam de sonhos. No segundo, de arrependimento, do que podia ter sido e não foi. Agora é hora de balanço, de avaliar o que sobrou e arriscar o que virá.

MAX, 0h40m