Little Joe

Longa excêntrico não dá respostas e traz reflexões muito pertinentes à sociedade moderna

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13 de dezembro de 2019

O que pode ser transformado em negócio? Aparentemente, tudo, inclusive a felicidade. O limite da ética é que costuma ser controverso, principalmente nos dias de hoje com a tecnologia cada vez mais avançada e invasiva. “Little Joe” levanta essas e outras discussões através de um argumento excêntrico e criativo: uma flor geneticamente modificada cujo pólen modifica o comportamento de seres vivos ao ser inalado. A mudança é tanta de uma hora para outra que, para pessoas próximas, parece que foram substituídos. Fica a dúvida no ar.

Na trama, Alice (Emily Beecham) é a responsável por criar a planta que deixa as pessoas felizes, cujo nome-título é uma homenagem a seu filho Joe (Kit Connor, que brilhou em “Rocketman” e está no elenco da série “His Dark Materials”). Chris (Ben Whishaw), seu parceiro no projeto, é apaixonado por ela, que sempre se esquiva de suas investidas. A bela e vermelha Little Joe parece perfeita até que pessoas ao redor de Alice começam a agir de maneira gradativamente estranha, incluindo seu filho, e a despreocupação da cientista com relação aos riscos do projeto é posto à prova. “Little Joe” é uma crítica às “pílulas da felicidade”, sejam elas farmacêuticas ou ilícitas: será que viver entorpecido, fingindo que seus problemas não existem, te faz realmente feliz? Quais são os efeitos colaterais disso a longo prazo? Vale tudo para se sentir feliz, mesmo que apenas por um determinado período? Como seria habitar um mundo onde todos são falsamente felizes e não se importam nem esboçam reação adversa a nada? Seriam esses novos seres humanos um modelo moderno de robôs? É certo lucrar com a felicidade entorpecida alheia?

A dupla Géraldine Bajard e Jessica Hausner, que repete a parceria de “Amour Fou” no roteiro com Hausner na direção, provoca o espectador a todo instante ao levantar diversas questões pertinentes ao mundo atual com a flor de pólen antialérgico e ardiloso. O vermelho-sangue de Little Joe sempre se destaca nos ambientes assépticos e sem muita personalidade, coisa que a flor tem de sobra. As atuações, que à primeira vista podem parecer medianas e até meio apáticas, mostram-se excelentes à medida que sutilezas nos comportamentos dos personagens vão surgindo gradativamente – é proposital que eles sejam estranhos para confundir o público. Com uma trilha sonora marcada ora por um zumbido alto e irritante, ora por um instrumental chinês com uma batida forte para dar um clima de mistério quando o perigo se aproxima, a tensão e a dúvida se mantêm do início ao fim em “Little Joe”, bem como as reflexões na mente de cada espectador quando acaba a sessão. Bajard e Hausner plantaram sementes com seu filme; como irão germinar, depende do solo encefálico de quem assistir. Quer experiência melhor do que essa?

 

Festival do Rio 2019 – Panorama do Cinema Mundial

Little Joe (Idem)

Áustria / Reino Unido / Alemanha – 2019. 105 minutos.

Direção: Jessica Hausner

Com: Emily Beecham, Ben Whishaw, Kerry Fox e Kit Connor.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4