O Escafandro e a Borboleta

Vamos redimensionar os clássicos de acordo com as necessidades estéticas dos novos tempos?

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28 de janeiro de 2021

Estamos todos enclausurados. E ao mesmo tempo nunca estivemos tão livres. Como borboletas afora um escafandro…

Parece contraditório pensar nisso. Estamos, de fato, enclausurados. Numa quarentena interminável, bem como numa privação de direitos, públicos e privados, pelo (des)governo que se vê por aí. Porém, não podemos dizer que estamos presos. Uma prisão é algo imposto contra a nossa vontade… e, apesar de muita gente estar cumprindo a quarentena, e outros tantos não poderem manter o home Office, tendo de sair para trabalhar em meio à alta curva ascendente de contaminação, ainda assim temos escolha. Podemos sim sair, seguindo ou não os protocolos de segurança… Uma prisão são grades impostas contra a nossa vontade. E nós ainda temos vontade.

Vontade foi o que elegeu, por exemplo, o atual representante desta bagunça federal… E esta mesma vontade é a que pode tirá-lo. Não estamos condicionados ad infinitum a esta pessoa. Podemos mudar a nossa realidade. E eis por que é tão complexo e paradoxal estarmos ao mesmo tempo mais livres do que nunca. Diante de nossas contradições e conflitos, somos convocados a urgir uma reação – não é possível ficar indiferente. Mesmo que esses tempos sejam ataráxicos, atordoantes, que nos façam sentir amarrados numa cama… Porém, não estamos. E mesmo se estivéssemos ainda teríamos a possibilidade de sonhar.

E é nesta jornada de revisitar o poder de imagens que marcaram significações em nossas vidas, ora redimensionadas pela pandemia, que talvez seja o momento necessário de trazer o filme “O Escafandro e a Borboleta” (2007) de volta. Dirigido por Julian Schnabel e protagonizado por Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner (dupla que voltaria a se encontrar no também maravilhoso “Pele de Vênus” de 2014 – leia aqui), o roteiro foi adaptado da biografia homônima escrita por Jean-Dominique Bauby, um ex-editor da Revista Elle de moda e cultura, que viajava o mundo com suas matérias sobre as coisas mais sofisticadas da vida, e que depois de um acidente vascular cerebral fica totalmente paralisado, podendo apenas mover o olho esquerdo (curioso ser o lado justamente ligado à emoção). Evidente que não iremos neste ponto cruzar uma analogia com o que o mundo está passando diante da pandemia, pois a maior parte da população não perdeu suas funções motoras ou a faculdade de locomoção (e não estamos falando de seqüelas da covid-19, evidente).

O que nos interessa aqui é ressaltar a extrema perseverança de vida, de onde saem fachos de esperança mesmo dos recônditos mais vedados ou obscuros… O autor do livro, cujo acidente ocorreu na vida real, passou muito tempo preso à cama de um hospital, fisicamente, e ainda assim conseguiu se libertar as amarras corpóreas e viajar por outro lugar que lhe era possível: a mente! Através de seus sonhos e lembranças, ele pôde reencontrar instâncias de sua vida e apaziguar seus fantasmas com elas… Ele pôde dialogar com os que se foram e com os que ele próprio fechou pra fora da porta de sua consciência, pois, ironicamente, sua imobilidade libertou seu subconsciente para onde ele bem entendesse ou desejasse transitar.

Este poder extraordinário, mesmo contido por uma das maiores debilidades físicas de vida que possa existir, não deixa de coincidir em todo e qualquer ser humano, numa capacidade acachapante de reinvenção e reposicionamento no mundo, de dentro pra fora. Contudo, o mais surpreendente do exemplo de vida deste indivíduo, na verdade, é que tais pulsões alucinatórias de recriar a realidade a bel prazer e mudar os parâmetros aprisionadores de vida dentro de nossas memórias não é algo que fica apenas no plano abstrato, e sim pode trafegar para o plano concreto. Assim como não só a personagem da vida real como o próprio filme o fizeram.

O livro escrito sobre essa experiência foi todo narrado em código, piscando o único olho que se movia e pelo qual conseguia se comunicar, onde cada piscada significava uma letra. E cada seqüência de piscadas significava uma palavra. Agora imaginem a força de vontade de “piscar” um livro inteirinho, e a coragem de narrar a sua própria história de vida e de luta a partir da condição em que se encontrava, mas de forma completamente libertária e emancipatória, tudo através da autofabulação?

Sim, fabular é um poder inacreditável, e não apenas para si, pois a fabulação é um dispositivo que pode alcançar o próximo, contaminar as pessoas de idéias e de desejos, sonhos e concretudes realizáveis, demonstrando através do exemplo relacional que as coisas são passíveis de serem alcançadas e mudadas. A memória é relativa justamente porque é perspectivista… E por isso mesmo vai cambiando de acordo com que é revista sob outros prismas relacionais… De acordo com que relacionamos o material original com outros fatores e influências, modificamos seus sentidos e alcançamos novos valores para o que já foi visto.

É curioso pensar que uma condição tão debilitante, para a pessoa e para o filme, pudesse se transformar em algo tão infinito. Que uma obra literária ou cinematográfica, para todos os efeitos gráficos ou visuais, pudesse abrir portas e janelas para tantos espaços. Como o cinema é feito em muito de cenários, locações, sets de filmagens bastante materiais, é bastante revelador descortinar a potência da virtualização destes elementos quando simplesmente usamos a capacidade de imaginar. Imaginar o inimaginável.

E isso é algo muito poderoso. Um exemplo para todos nós. Para o cinema de nossas vidas, na tela que pintamos no dia a dia, e que não começa apenas pelo sol revigorante que possa perpassar as frestas das cortinas na janela e bater em nossos olhos na primeira visão do dia. Mas sim que toda uma revolução de possibilidades pode se desvelar à nossa frente, se apenas soubermos sonhar acordados e agir de acordo pra que esses sonhos possam ser vistos por mais gente que apenas nós.

Afinal, não seria o significado de um sonho que se torna realidade justamente convencer os outros ao nosso redor da mesma loucura que vemos com nossa própria visão? E se no momento em que todos também puderem ver a mesma coisa talvez deixe de ser tanta loucura assim? Passa a ser aceitável, concreto, possível… E o concreto nos permite galgar mais um degrau até demolir todos os outros e construir uma escada própria, que não seria possível se primeiro não fosse sonhada. Como uma borboleta afora de um escafandro. Não importa o quão submersos acreditemos estar, sempre vai haver ar pra respirar se simplesmente pudermos sonhar. Estejamos quarentenados em nossas casas ou em nossos direitos. Sonhar pode derrubar castelos e erigir a força de uma população. Se já é forte sonhar por si só, imagina juntos?