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21° Mostra de Cinema de Tiradentes traz repescagem para SP com filmes engajados como "Outras" de Ana Julia Travia

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17 de março de 2018

Como eu disse ontem, começou a itinerância em SP da 21° Mostra de Cinema de Tiradentes com repescagem de seus filmes mais aclamados, e decerto um deles foi “Outras” de Ana Julia Travia, que inconscientemente faz remissão histórica à montagem vanguardista do mítico “A Entrevista” de 1966 dirigido por Helena Solberg (mestra brasileira desde os tempos do Cinema Novo e cuja obra está tendo Mostra Retrospectiva Helena Solberg completa no CCBB Rio de Janeiro — confira programação).

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O Filme foi um dos mais aclamados da Mostra Foco e disputou até o final da reta na premiação por alguns dos prêmios principais, sendo tema de debates por ter sido o único filme dirigido por mulher negra na competição em que estava (havia apenas dois outros, em Mostras paralelas, que eram o único longa “Café com Canela” de Glenda Nicácio e Ary Rosa, e os curtas “Peripatético” de Jessica Queiroz e “Pele de Monstro” de Bárbara Maria). E isto é crucial perante o momento em que estamos vivendo após a cruel execução premeditada de uma figura pública representante do povo, a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, que era mulher negra e advinda da mesma periferia que suas causas defendiam, e onde não há muitos políticos auxiliando a ampliar a voz na Câmara ou em nenhum lugar.

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E por que isto? Porque se não tivermos representatividade e melhor representação social nos principais signos culturais que deveriam refletir o momento histórico, estaremos indefesos perante violências diárias como essa. A defesa por Marielle também envolve que a própria sociedade possa se ver empoderada e respaldada nas Telonas e telinhas, pois se a população não se vê representada, deixa de ter tabulas referenciais de ocupação e resistência. Então, um filme como “Outras” de Ana Julia Travia que debate exatamente o lugar da mulher negra na sociedade, e que ainda hoje pode estar sendo tratada como “a outra referência”, justamente porque as mídias dominantes não estão debatendo sobre isso nem perto do suficiente, faz remissão histórica ao feminismo interseccional e à citação de Simone de Beauvoir parafraseada e expandida de que se a mulher não tinha nem o direito de nascer com sua identidade pavimentada referencialmente na sociedade, tendo de construir e se tornar esta individualidade social, imagina, portanto, a mulher negra.

O filme de Ana Julia foi exibido na sexta-feira e, agora que foi assistido também pelos paulistas, podemos nos aprofundar. Até porque sua obra não se resume nem se encerra no fato estatístico de ter sido a única diretora negra da Mostra Foco, tampouco pela analogia da montagem com “A Entrevista” de Helena Solberg. Analogia esta, por sinal, externa ao filme, pois, numa conversa exclusiva da diretora para o canal A Lente Escarlate, com Samantha Brasil e Catarina Almeida (linkada abaixo no presente cabeçalho), Ana Julia fala sobre seu processo criativo e como chegou à desconexão entre a imagem e o som, expandindo as dimensões das mulheres retratadas em mais de uma história: A contada pela imagem e a do extracampo pela narração em off. Sendo que ela jamais havia assistido antes ao filme de Helena Solberg (até porque, vale mencionar, o próprio filme “A Entrevista” não tinha acessibilidade no Brasil até esta semana, quando a própria Helena liberou este urgente registro histórico, enfim, na plataforma Hysteria: https://hysteria.etc.br/ler/arquivo-vivo/ ). Acontece que a própria Helena viveu em autoexílio nos EUA durante a Ditadura brasileira, e se viu impedida de fazer seus filmes aqui como lutava para conseguir, aimda que tenha podido com financiamento americano fazer filmes de luta e engajamento político denunciando outras ditaduras, por exemplo, e as lutas revolucionárias pela liberdade, como por exemplo na Nicarágua e Chile…

Acontece com “Outras” uma situação inversamente proporcional, pois existe certo ‘exílio’, se considerarmos os impedimentos já naturais para se fazer cinema e estimular a cultura em geral no Brasil, quanto mais advindo de recortes considerados periféricos para os investidores hegemônicos, como de gênero, raça, sexualidade, classe, territorialidade e etc… Só o fato de Festivais de Cinema de suma importância para o Brasil, como Tiradentes, possuir dificuldades mis para alcançar sequer uma representatividade paritária nas Mostras de filmes já demonstra o abismo entre a visibilidade e reconhecimento e a produção de fato destes mesmos filmes, porque eles estão sendo realizados. Como a própria narrativa de Ana Julia demonstra, agregando inúmeras vozes de estudantes negras que conseguem se organizar melhor em autoconsciência política a partir das políticas recentes de inclusão e quotas dos últimos governos, que foram sistematicamente derrubados e minados, vide o Golpe e agora a execução de uma representante negra com um dos maiores índices de voto popular.

Ana Julia revê os conceitos não apenas do lugar na sociedade de suas personagens, inserindo a si própria dentre as vozes depoentes, como de sua família na figura de sua mãe, mulher branca, onde a cineasta expande seu debate cinematográfico para questões geracionais e interraciais. Esse espelho de abraço às diferenças e compreensão de se colocar um no lugar do outro, especialmente aquiescendo que jamais se poderá sentir da mesma forma, mas tão somente estar sensível a estas mesmas sensações externas ao seu corpo político, faz do filme de Ana Julia uma grande catarse que funciona na chave convidativa de engajamento do próximo a que tanto falta na sociedade atual. E nem todos os testemunhos são em acordo total, pois, assim como na vida, há vontades e desejos próprios de cada um que não necessariamente precisam conflitar ou harmonizar, e sim ser respeitados.

Um libelo necessário e atualíssimo que pôde ser reexibido num momento histórico tão traumático, onde precisamos do Cinema que não nega seu lado politizado, de consciência do cidadão e do coletivo. Ana Julia enviou este abraço inconsciente à Marielle numa cápsula do tempo, muito bem-vindo na hora certa.