Passageiros

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04 de janeiro de 2017

Dirigido por Morten Tyldum, cineasta de “O Jogo da Imitação” (2014), “Passageiros” leva ao extremo um projeto — aliás, muito comum nas resoluções de virada de ano — de buscar uma vida nova, recomeçando do zero. A proposta é justamente essa, porém levada mais a sério, como uma oportunidade de renascimento artificial. No enredo, pessoas dispostas a investir em uma viagem espacial serão capazes de reiniciar suas existências em um planeta apto a recebê-las. Os corajosos, denominados passageiros, devem hibernar em cápsulas individuais enquanto a nave segue uma longa trajetória até o destino final: o tempo de viagem, mais especificamente, é de 120 anos. Como nem tudo é perfeito e o longa precisa de uma crise para desenvolver-se, um defeito inesperado é o estopim para o fim precoce da hibernação de dois passageiros, o mecânico Jim Preston (Chris Pratt) e a escritora Aurora Lane (Jennifer Lawrence), expulsos de suas cápsulas 90 anos antes do esperado.

Dentro do tema que se enquadra no gênero de ficção científica, a viagem espacial para a implantação de vida humana em um planeta novo, o filme promove uma espécie de subtema que valoriza, até certo ponto, a experiência de assisti-lo. Trata-se do dilema ético de Jim Preston, fora da cápsula de hibernação cerca de um ano antes da escritora, resultante do desfrute solitário de uma nave super tecnológica, capaz de oferecer diversas opções de entretenimento e boa alimentação. Após domar o desespero por não conseguir comunicação com nenhum membro da tripulação para avisar o seu problema, os tripulantes também hibernam e o veículo se movimenta por meio do piloto automático, Jim vai dividir o ambiente onde ele parece fadado a morrer com a atraente Aurora. Antes da moça, um andróide barman (Michael Sheen) era o único contato dele com algo mais próximo de um ser humano. Como é de se esperar, Jim e Aurora vão se envolver em um relacionamento amoroso. Afinal, são bonitos, jovens e não têm perspectivas de fuga.

Filme com toda a roupagem de blockbuster, “Passageiros” é sim um produto para entretenimento descompromissado, mas com desvios que saltam aos olhos do espectador mais exigente. Nesse âmbito, o filme sofre com previsibilidades e resoluções cômodas demais, que prejudicam o resultado. A pane elétrica da nave, iniciada com a falha no setor de hibernação, é agravada no decorrer do filme colocando em risco a vida dos passageiros. Uma terceira pessoa, o tripulante Gus Mancuso (Laurence Fishburne), também liberado da cápsula antes da hora, tem uma aparição relâmpago no terço final do filme. A presença do personagem é justificada pela contribuição de conhecimento dos aspectos técnicos da nave, mas mal explorada no sentido dramático. O relacionamento de Jim e Aurora também não escapa — o que de início foi moldado de forma bastante original, um caso de amor tórrido em pleno espaço, depara-se com o chavão da crise que coloca a união e o sentimento dos dois à prova. A viagem proporcionada por “Passageiros”, liderada pelo comandante Morten Tyldum, poderia ser mais do que apenas diversão. Faltou no trajeto o desejo de se comprometer mais racionalmente com o tema.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3