Rodson ou (Onde o Sol não tem Dó)

Filme-Remix

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28 de janeiro de 2021

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“Lixo com brilho neon. Lixo com holograma e som 8D. O lixo é um outdoor de alta concorrência.”

Essa frase que serve de cartela no meio do filme “Rodson ou (Onde o Sol Não tem Dó)” de Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra (CE, 2020) resume bastante da linguagem da própria obra, baseada na zine “O Sol de Icó não tem dó” de Cleyton Xavier e Urutau Maria Pinto.. Uma estética reciclada, de neon, e cuja metalinguagem parece remix de várias fontes, como se pudéssemos botar um filme nas carrapetas de um DJ e rodopiar o disco até distorcer a música, como num caleidoscópio, e ver o que vai dar.

É bastante interessante poder acompanhar a evolução do cinema entre o sci-fi e a distopia que a sétima arte cearense anda realizando, numa vanguarda de experimentação, pois independente de como o espectador se sinta em relação às provocações do filme, indiferente decerto ele não irá ficar. Vide o exemplar “Tremor Iê” de Elena Meirelles e Lívia de Paiva que também competiu na Mostra Tiradentes há dois anos (leia mais aqui e entrevista aqui).

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E, de fato, debater até agora a plasticidade com que a história é contada não deixa de ter tudo a ver com a própria história em si. A sinopse é apenas um fiapo indicativo do que está por vir, e cuja visualidade exprime mais do que apenas as palavras poderiam. A trama revela que estamos num período pré anos 3.000, onde a arte se tornou crime e refletir é proibido. O governo chamado de “anarcocrenty” impõe apenas produções de consumo em massa, coibindo quaisquer outras manifestações de individuações. É neste cenário que surgirá o protagonista-título, Rodson, e seu alter ego, um robô chamado Caleb, através do qual irá surgir toda a sua criatividade em rebeldia às castrações sociais que ele enfrenta com sua existência.

Até mesmo as já supracitadas cartelas com frases que vão direcionando a narrativa do filme parecem brincar de fazer saltar o roteiro na tela e atiçar a imaginação da plateia… Pois quando achamos que eles não podem criar algo ainda mais curioso visualmente, e apelariam para as palavras escritas, enunciadas na tela, para evocar a criatividade do espectador, é quando surpreendem novamente dando vida a combinações esdrúxulas, muitas vezes eficazes…

Há de exemplo as cenas em que vacas e jumentos no pasto são contorcidos em pixels e vão se tornando pinturas; como se metadados virtuais de cores na pós-produção pudessem se tornar pinceladas – em muito parecidas com uma combinação de artes modernistas à La Tarsila do Amaral, ou mesmo ao toque do regionalismo reivindicado nos traços psicodélicos do pintor nascido no Acre, mas que viveu a vida inteira no Ceará, Francisco Domingos da Silva, ou Chico da Silva (Fonte: “Sábado, Estação de Viver – Histórias da boemia cearense”, livro de Juarez Leitão).

O roteiro chega a usar as palavras raiva e violência para transgredir em face à repressão dos instintos animalescos e selvagens de pulsão criativa, e esta necessidade de ruptura dos ordenamentos engessados que não nos representam pode ser reconhecida em todos nós. Estas rupturas atravessam a linguagem do filme. Desde as mais escancaradas, como trocas de filtros cromáticos que alternam as cores do filme de modo bastante explicitado, às sutilezas transmídias, como misturar a virtualidade representada na história pelo robô com trechos estéticos computadorizados como o glitch, a memética e o videogame tipo super nintedo, quando as personagens são representadas como avatares de uma espécie de RPG, tipo “Final Fantasy” ou “Legend of Zelda”. – Por falar nisso, este último referencial também pode ser lembrado por outro filme que emparelha com este, “Cartuchos de Super Nintendo em Anéis de Saturno” de Leon Reis (2018), também do Ceará, e que já bebia da fonte de outra vertente distópica, o afrofuturismo.

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Esse liquidificador referencial pode parecer excessivo, e não é qualquer espectador despreparado que conseguirá absorver tudo isso ao mesmo tempo. Porém, é positivo não estimular a condescendência nem o lugar comum, mesmo que possa intimidar parte do público. Se fosse para descansar o olhar, há outros filmes na própria Mostra pra se debruçar de forma mais imediatista. Da mesma forma que, inversamente proporcional, também há obras que levam a linguagem da impureza das imagens e da cacofonia de sensações conflitantes e periclitantes para os sentidos de forma até mais extrema e violenta que “Rodson ou (Onde o Sol Não tem Dó)”, como o curta “Minha bateria está fraca e está ficando tarde” de Rubiane Maia e Tom Nobrega (SP, 2020) – o qual deseja provocar reações mais epilépticas e menos seguras perante as imagens que tanto podem nos enganar.

Ou seja, tanto num quanto noutro, em seus diferentes níveis de engajamento com a violência de sentidos, ambos desejam nos arrebatar da ataraxia reinante na era das fake news que relativizou os códigos, de modo a nos estimular a criar novos signos a partir da reciclagem; do remix. Atenuem ou não isso pelo ideal romântico da ficcionalização dentro da revolução da suposta realidade, guardadas as devidas proporções em cada um dos filmes supracitados.

Afinal, não deixa de haver um olhar épico neste exemplar cearense da direção coletiva por Cleyton Xavier, Clara Chroma e Orlok Sombra que invoca a autofabulação de Rodson como elemento libertador da repressão. O fato de ele projetar no robô Calebe seu alter-ego (como as imagens em RPG já demonstram) dá todo o poder ao seu espelho que ele não conseguiria em vida material. E este olhar épico leva ao pé da letra os signos ultrarromânticos da jornada do herói, vide o maniqueísmo ainda binário que cria um antagonismo clássico entre os dogmas autoritaristas versus a catarse artística, esta como única libertação da máxima do espírito pra além da carne. Vide cartelas no filme como:

“Até que um dia, três pistoleiros milicianos enviam seu exército de polícias sadomasoquistas para acabar com o show e exterminar as artistas”.

E é através desta oposição de forças que o filme usa da narrativa cinematográfica a seu favor pra oferecer novas significantes, como as personagens transgêneres, usando da abolição da conceituação para criar híbridos afora da dicotomia. Há personagens de identidades fluidas como Melindra Lindra, Tina Reinstrings, Sapata Deslizante e Cavalona Dishavada formando a Banda Glamourings… E estas personagens surgem afora de um momento do filme em que se interrompia o caleidoscópio pelo preto e branco na mise-en-scène, aludindo à estética retrô, como numa TV antiga, pré possibilidades da internet, e como se estivéssemos engessados num mundo desbotado e condicionante. São estas personagens que devolvem o ultra-colorido ao filme, e a possibilidade de fluidez entre gêneros cinematográficos e humanos. Literalmente colagens de imagens e de ruídos dissonantes, cuja propriedade disruptiva é a possibilidade de romper o status quo.

Com isso, o épico não serve aqui de modo conservador ou acomodado a formatos pré-estabelecidos, e sim como reocupação dos espaços outrora usurpados. A própria disrupção não nega os gêneros clássicos de linguagem, pois utiliza vários deles, do noir e neorrealismo (na primeira e segunda sequência em P&B, respectivamente), ao sertão e faroeste… contando, inclusive, com jogos de cartas em saloons (bares na orla da praia), ao famoso duelo ao pôr-do-sol (terceira sequência em P&B), que depois consegue virar inusitadamente até numa paródia de documentário (quarta seqüência em P&B) e sitcom norte-americana.

Portanto, se temos gêneros clássicos e disruptivos, simultaneamente, também temos herói e anti-herói, personagem e caricatura, real e surreal… No entanto, ainda assim, temos igualmente uma jornada de provação, perdas e redenção. Não através da típica figura heróica, pois o próprio filme remixa isso e aplica o glitch e o erro ao sistema, como se hackeasse a todo tempo borrando as fronteiras, tornando as pontes em conexões impuras. E, nas palavras do mestre do cinema marginal brasileiro, Rogério Sganzerla: avacalha-se tudo. Avacalha a dicotomia entre pacifismo e violência, e vice e versa. Quase a perder qualquer lógica ou razão.

Eis a conclusão: quando se pensa que a intenção era exatamente essa, caso você embarque na brincadeira, irá se divertir sob medida com o que lhe foi proposto. Esse é um filme que pode avacalhar com tudo, mas não mente pra você em nenhum momento sobre quais são suas verdadeiras intenções.

PS: Forte candidato a melhores créditos iniciais e finais do ano! Desde a fonte das letras, cores, montagem e trilha sonora! Simplesmente perfeitos.

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