Seus Ossos e Seus Olhos

Desconstruindo Gotardo: Um singelo poema corporal da palavra palpável.

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22 de janeiro de 2019

“Seus Ossos e Seus Olhos” de Caetano Gotardo. Com Caetano Gotardo, Malu Galli, Wandré Gouveia… Primeiro filme da competição principal de longas na Mostra Aurora na 22° Mostra de Cinema de Tiradentes

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Desconstruindo Gotardo:

E a competição da Mostra Aurora iniciou com um filme singelamente intrigante dirigido e protagonizado por Caetano Gotardo, numa inspiração metafísica do cotidiano com movimentos temporais diametralmente proporcionais à la Hong Sang-Soo, o cineasta coreano da repetição psicanaliticamente simétrica de catarses opositivas.

A dilação temporal com que Gotardo trabalha em sua nova obra traz reminiscências de seu primeiro longa-metragem, “O Que se Move” (2013). Acontece que aqui ele concentra o poder da memória em outra chave de potência: a da auto refabulação em cenas que vão se repetir de formas diferenciadas, como um Sang-Soo em filmes como “Certo Agora, Errado Antes” — onde a história principal termina na metade da projeção com créditos finais, até que a mesma história recomeça com ligeiras diferenças cruciais. No filme “Seus Ossos e Seus Olhos” podemos estar escutando um som que não está lá, mas posteriormente poderá estar. Ou mesmo tendo uma lembrança do que ainda não aconteceu, ou de um passado que vai acontecer de novo.

A trama seria muito simples e se encaixaria perfeitamente numa dramaturgia bem Nouvelle Vague, só faltando o registro em P&B. O protagonista irá ser atravessado por vários encontros em seu caminho para uma viagem interna dentro de si a cada nova experiência externa. Na pele do próprio diretor Caetano Gotardo, o personagem João também trabalha com cinema e parece tentar se entender como pessoa em uma realidade na qual não consegue se adaptar e perante a qual ele gostaria de ter postura mais agressiva. São coisas que podem ir desde as micropolíticas pessoais, como LGBTQI+, ou externas, como pessoas sem teto a esmolar na rua… Ou mesmo menção ao golpe parlamentar e alusão de um retorno no Brasil à Ditadura. E esta desestabilização leva à revisão pessoal que o personagem irá exercer sobre a narrativa. Do que ele vê (diante ou não de seus olhos) ao que ele sente (vibrando até seus ossos).

A projeção começa com uma primeira sequência majestosa, com uma expressão corporal de quem não se adequa ao sofá nem ao chão da casa da amiga, seguida de um monólogo da própria (interpretada por Malu Gali). O texto deste pequeno monólogo que vai se transformando aos poucos num diálogo é nada menos que perfeitamente escrito e sentido. Até mesmo o dispositivo fantástico usado em cena é bem encaixado, sobre a memória filosófica das coisas de que só passamos a nos lembrar de algo quando a sociedade nomeia e categoriza este algo. Se esta primeira sequência fosse um curta-metragem, já seria um dos melhores do ano. Mas o dispostivo irá se desdobrar e repetir durante o filme, como numa estratégia já retromencionada à la Sang-Soo, onde a repetição é catarse para tentar se libertar de seus estigmas sociais.

As falas são reflexivas e repletas de solitude em suas palavras. Seus personagens parecem lidar com um vazio abismal em suas memórias, de modo que o tom aparentemente naturalista retoma a pantomima teatral do absurdo pronunciada com sobriedade. Há inclusive porções de metalinguagem espalhadas, como ensaio de teatro dentro do filme e até, numa das melhores cenas, uma quebra da quarta parede quando o personagem de Caetano Gotardo quase se assume diretor do filme e brinca de manipular as imagens que já se sucederam na tela. É aí que situações que já aconteceram voltam a acontecer, o que pode soar repetitivo para o espectador desavisado, mas faz parte do jogo de cena.

As relações estabelecidas, sejam com a melhor amiga, ou as relações homoafetivas com o relacionamento aberto com o namorado, são todas interiorizadas para o protagonista sofrer uma espécie de implosão em seu jeito sereno de ser. Caetano segura as pontas da atuação de seu personagem mesmo acumulando funções de roteiro e direção, o que poderia se tornar um outro rendimento completamente diverso caso tivesse relegado a direção à outra pessoa ou dirigido outro ator em seu lugar, como um Irandhir Santos, talvez. Claro que isto poderia também significar um filme completamente diferente, para o melhor ou para o pior, mas Gotardo demonstra que aguenta o rojão. Especialmente em algumas cenas bastante corporais, como as cenas mais físicas em que ele tenta encontrar como se encaixar no mundo e nas pessoas ao seu redor, há de exemplo as cenas de sexo (e aqui devo citar o que parece ser uma referência ao vigor lírico corporal homoerótico de Chantal Akerman em seu filme “Eu Tu Ele Ela”)… Ou mesmo vide a dança/performance que Gotardo faz para a câmera numa coreografia impressionante de cair o queixo e agitar o tom reflexivo do filme, tanto quanto a corridinha na rua para tentar fugir de um pedinte, ou melhor, de sua consciência.

Há muitas boas ideias em questão aqui, algumas mais trabalhadas e outras que talvez a excelência da primeira sequência nos fizessem querer ver a continuidade no foco narrativo antes mesmo do desdobramento de outros segmentos. E os diálogos/monólogos são um primor, apesar de sentir um pouco de falta de mais descolamento das imagens respectivas às falas, podendo ter passeado mais nos cenários enquanto as palavras durassem no extracampo ou mesmo em planos detalhes dos microgestos de seus personagens espartanos. Talvez repercuta efeitos diferentes em cada tipo de espectador, mas também desperta empatia no que o espectador talvez não espere. Um filme que tem seu próprio tempo e perante o qual não adiantará impor seu ritmo sob risco de se perder ou desconectar.

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