Uma Mulher Alta

Indicado da Rússia no Oscar 2020 mostra o sofrimento e traumas femininos após a Segunda Guerra Mundial

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10 de dezembro de 2019

Adaptação do livro “A guerra não tem rosto de mulher”, da vencedora do Prêmio Nobel Svetlana Aleksiévitch, “Uma Mulher Alta” se passa na devastada cidade de Leningrado após a Segunda Guerra Mundial, em 1945. Iya (Viktoria Miroshnichenko) e Masha (Vasilisa Perelygina) são duas jovens mulheres que tentam reconstruir suas vidas em meio aos destroços deixados na Rússia pelo cerco de Leningrado, enquanto buscam um sentido para viver e formas de superar morte e traumas, que continuam rondando diariamente todos os cidadãos.

Longe de ser maniqueísta, o longa dirigido por Kantemir Balagov mostra que na guerra não há certo e errado: a câmera não julga as personagens, e sim tenta fazer com que o espectador se coloque em seus lugares para entender seus medos, traumas e fantasmas deixados pelo pós-guerra, assim como suas atitudes do presente. Em sequências bem prolongadas, às vezes desconfortáveis e sem diálogos, muito é dito apenas através de gestos, olhares e pequenos sons. A lentidão é proposital para que o espectador possa imergir no penoso processo de recuperação depois que uma guerra termina, em especial para as pessoas mais pobres, que sempre têm suas vidas, já antes mais difíceis, destruídas. Algumas cenas parecem quadros, sempre com cores fortes e contrastantes numa fotografia incrível.

Balagov consegue traduzir em imagens a complexa relação entre Iya e Masha, duas mulheres com personalidades completamente diferentes que criaram uma amizade durante a guerra. Iya, que é enfermeira no hospital de veteranos de guerra, vê a dor, física e mental, diariamente em seus pacientes homens, mas “Dylda” (no original) volta seu foco às dores e fardos carregados pelas mulheres em períodos difíceis, quase sempre esquecidos para dar luz ao sofrimento masculino em histórias do gênero. Iya, uma mulher mais alta que a maioria de sua cidade, como o próprio título já sugere, carrega uma culpa proporcional à sua altura, que se transforma em uma relação de dependência, obsessão e manipulação com Masha, que envolve sexualidade de maneiras diversas.

Vencedor do prêmio de melhor direção na mostra Un Certain Regard e do prêmio FIPRESCI no Festival de Cannes 2019, e representante da Rússia no Oscar 2020 de filme em língua estrangeira, “Uma Mulher Alta” traz desconforto e reflexão de uma maneira, ao mesmo tempo, densa e delicada através de atuações poderosas. Um filme para ser assistido com atenção e empatia.

 

Festival do Rio 2019 – Expectativa 2019

Uma Mulher Alta (Dylda)

Rússia – 2019. 137 minutos.

Direção: Kantemir Balagov

Com: Konstantin Balakirev, Andrey Bykov e Olga Dragunova.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4